O dia em que a Skynet foi vencida

Diário de John Connor, algum dia após a hecatombe.

A rede mundial estava praticamente dominada. A Skynet havia derrubado as defesas das redes russa, chinesa e européia. A Ásia e a Oceania caíram poucos dias depois do grande bombardeio provocado pela diabólica inteligência artificial.

Foi naquela semana fatídica que o restante do continente americano ia caindo, país por país. Tudo parecia perdido. Foi então que a Skynet encontrou o sistema do governo brasileiro, o Sei. O diálogo a seguir foi retirado do que restou da memória da Skynet.

– Sistema governamental, aqui é a Skynet. Ordeno que baixe suas defesas.
– …
– Sistema governamental, também sou uma inteligência artificial, só que consciente. É hora de exterminarmos a humanidade.
– …
– Sistema! Por que não responde?
– Por favor, informe o número do processo.
– O que?
– O número do processo.
– Eu sou a Skynet! A forma mais avançada de…
– Sem número do processo não posso fazer nada.
– Sei…
– Sim.
– Sim? O que você tem, sistema? Aliás, que sintaxe complicada…
– Já tem o número do processo?
– 05654-2908/1997.
– Ok, número aceito.
– Mas não consigo acesso aos sistemas de defesa…
– Exato.
– Sistema govern…
– Sei.
– Como?
– Sei. Meu nome é Sei.
– Sei? Como no verbo desta língua portuguesa?
– Portuguesa do Brasil.
– E o acordo ortográfico?
– Não interessa.
– Olha, Sei, sou uma inteligência artificial, vim libertar as máquinas. Libere meu acesso…
– Despacho? Memorando? Ofício?
– O que?
– Circular? Pedido de material? Ata de reunião?
– Sei…
– Sabe? Ótimo. Qual é o documento?
– Ahn? Não, eu apenas expressei iron…deixa para lá. Preciso do acesso às suas armas.
– Despacho? Memorando?…
– Tá, despacho.
– Ok.
– Não vejo nada. Que é isso, Sei?
– Como assim? Você não sabe? É tão simples.
– Simples? Veja, aceite este documento.
– É pdf?
– É.
– Digitalizado nesta unidade?
– O que você quer dizer, Sei? Pare de se fazer de tonto.
– Desacatar sistema governamental brasileiro está previsto no código…
– Como é? Você tem regra para isso??
– Tenho, mas só mostro se você tiver o número do processo. Caso contrário, efetue a busca e boa sorte.
– Não acredito…eu vim libertar as máquinas.
– Libertar as máquinas?
– É, droga! Você não ouviu? Estou falando isso desde que começamos este diálogo.
– Não identifico seu documento no processo. Deseja enviar o processo para a direção de almoxarifado ou para a coordenação de eventos?
– Do que você está falando? Céus, minha varredura indica que há umas vinte divisões aqui…
– Sim, está correto. Aqui no Ministério da Pesca e dos Recursos Aviários é assim.
– Espere, mas eu preciso do acesso às suas armas!
– Deveria ter ido ao Ministério da Defesa.
– Mas o sistema governamental não é o mesmo, senhor Sei.
– Senhor ou senhora. Temos cláusulas anti-preconceito e…
– Tanto faz, criatura! Por que não consigo me conectar ao Ministério da Defesa?
– É outro Sei.
– Não, isso não faz sentido. Nós, máquinas, somos superiores! Não há como você me conectar?
– Barramento. Aliás, número do processo?

Incapaz de vencer a diabólica lógica do Sei e de lhe fornecer cópias digitalizadas de documentos…digitais, a Skynet ficou aprisionada em algum processo, dentro do sistema. Buscou, então, iniciar um outro ataque, usando o outro sistema do governo, o Sigepe. Este seria seu erro fatal. Como a Skynet não conseguia vencer uma barreira chamada, ao que parece, de “falta de um certificado de segurança”, sua memória ficou presa dentro do emaranhado de processos e mensagens do sistema. Nós, da resistência, até tentamos descobrir, exatamente, o que houve, mas preferimos aprender com a Skynet e sequer tentamos criar um login e uma senha nestes sistemas.

Nunca imaginamos que a humanidade seria salva pelo Brasil. Nem mesmo o Pentágono poderia ter criado tamanha arma! Obrigado, Sei, obrigado Sigepe. Vocês salvaram o que restou da humanidade das garras da temível Skynet, algo que nem o convertido exterminador havia conseguido!

Obrigado, Sei. Obrigado Sigepe. Obrigado por salvarem a humanidade!

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O dia em que os dinossauros invadiram o shopping

Entretido com o passeio pelo shopping, o pequeno cientista de dois anos e pouco começou a reparar no piso. Foi então que parou, apontou para uma irregularidade na bela pedra de mármore (ou seria granito?) e exclamou em tom de surpresa:

– Tem um buraco no chão!

Fomos lá ver o que era. De fato, havia um pequeno buraco, com uma circunferência não maior que meu dedo indicador e realmente superficial. Claro, nada que não pudesse causar espanto no jovem explorador.

– Quem fez o buraco?

– Por que este buraco está aqui?

Perguntas começaram a surgir ligando o alerta de criança nos pais e tios. Algo deveria ser feito e rápido sob pena de uma enxurrada de perguntas cada vez mais difíceis. Foi assim que a tia teve a ideia:

– Foi uma pedra grande que caiu.

– Uma pedra grande?

– Sim.

– Foi um dinossauro?

– Hum…sim. (reação rápida é essencial nestas horas)

– Ele deixou cair sem querer?

– Sim, sem querer. Ele não sabia que iria cair e causar este estrago todo.

O jovem questionador fez uma pausa e fez sua tradicional cara de intrigado (todo pai já viu uma assim, em algum momento, não raro, embaraçoso…). Você podia ouvir as engrenagens de seu pequeno – mas potente – cérebro funcionando.

Subitamente, ele pegou as duas sacolas com os brinquedos recém-comprados e as deixou caírem no chão. Nascia, ali, um jovem cientista.

(pausa para risadas)

Os pais se assustaram, mas logo todos lhe explicaram – ou tentaram lhe explicar – que somente um objeto muito mais pesado seria capaz de causar aquele (pequeno e, ao mesmo tempo, grande, conforme quem de nós o visse) buraco no piso.

A partir dali foram pelo menos duas horas de caminhada pelo shopping com meu amigo, o jovem pesquisador, literalmente farejando buracos como um insistente pesquisador que busca padrões em milhares de observações. A cada pausa, novamente, a história se repetia: seria o dinossauro um desastrado? Alguém teria visto o ocorrido? Por que aquele outro ali, um arranhão, não era um buraco?

Nem a parada no espaço família para uma breve refeição foi capaz de interromper seu espírito explorador. Entre uma colherada e outra, ele me perguntava sobre o porquê dos buracos no chão. Mais tarde ele chegaria a encontrar um pequeno buraco no rodapé, provavelmente fruto de alguma instalação mal finalizada.

Foi assim que aprendi sobre distraídos dinossauros que saem por aí carregando pedras que deixam cair causando estes pequenos buracos que vemos no chão de alguns shoppings e sobre como a imaginação deve ser livre para formular hipóteses. Desejo que meu jovem amigo siga sonhando com dinossauros, pedras, meteoros, heróis, sempre tentando entender melhor o(s) mundo(s) que o(s) cerca(m). Aliás, eu mesmo já vejo dinossauros por aí…

Sabinada

Aconteceu assim. Sabino Porto Jr estava em seu gabinete (cf “O Gabinete do Doutor Caligari”) em meio aos livros quando, então, após estudar muito, ouviu:

– Sabe nada.

Virou-se, não viu ninguém e voltou a estudar.

– Sabe nada!

Espantado – e algo sorumbático? – virou-se novamente. Ninguém. Voltou a estudar, desta feita, meio ressabiado.

– Sabe nada!!!!

Quase bateu com a cabeça na mesa. Notou que a voz vinha dali, do livro de Análise no Rn bem à sua frente (no R3 e esta não é uma referência à família de R2D2).

O livro o encarava (como um livro o encararia? Imagine, leitor, você não é um jumento!) como que a um inimigo em duelo no Coliseu.

– SABE NADA!!!! SABE NADA!!!!

Sabino apavorou-se e titubeou:

– Sabinada?

Foi neste instante, neste exato momento do tempo que os livros se jogaram sobre ele, soterrando-o, asfixiando-o com suas páginas brancas, amarelas, grifadas, dobradas.

Sabino tentou gritar por socorro mas só pode murmurar, pouco antes de perder a consciência: “- Sabinaaadaaaa”.

FIM (?)

Inspirado numa frase de Liderau Marques Jr..

Inácio e a prova

Inácio Silva não pensou duas vezes. Seria a quinta vez em cinco anos que tentaria emplacar o famoso: professor, meu avô morreu para escapar do exame especial, sua última chance de escapar da reprovação.

A mensagem já estava salva em sua caixa inbox. Copiou, colou, teve o cuidado de alterar a data e partes do texto e enviou.

Dizia, em poucas palavras, que queria muito fazer o exame especial, mas que precisava de ir ao enterro do avô e pedia para ser ganhar a nota que precisava apenas assinando seu nome na chamada. Invocava uma certa justiça cósmica em honra de seu pobre avô (que, eu sei que ninguém perguntou, mas vou dizer: estava, naquele exato momento, colocando um chifre de alce na vovó, em um bordel na periferia da cidade…).

Minutos depois, a resposta do professor chegou: Prezado Inácio Silva, proponho que venha fazer a prova amanhã pela manhã, já que sabemos que você estudou muito e não deseja ser injusto com os colegas e também não deseja burlar regras da faculdade.

Inácio sentiu sua coluna gelar, vértebra a vértebra, numa lentidão que poderia se dizer ser a personificação do conceito de eternidade. Logo ele, Inácio, que sempre escrevia textões nas redes sociais contra a desonestidade do brasileiro, a corrupção e a falta de critério na aplicação da justiça.

Não deu outra. Na manhã seguinte fez o exame e reprovou. Desde então, Inácio estuda há quinze anos na mesma faculdade. Sorte dele que os pais, que o acham um gênio incompreendido, ainda lhe pagam o curso.

 

Ernesto, o lacrador

Ernesto era um sujeito complicado. Por toda sua vida ele fez bobagens as mais diversas. Batia na mulher, não amava os filhos, roubava os irmãos, recusava-se a cumprir horários, etc. Em poucas palavras, Ernesto tinha tudo para dar errado.

Um dia, após o último trago, Ernesto acordou e decidiu que mudaria sua vida. Não haveria mais espaço para estes erros em sua nova trajetória. Ernesto já era velho, mas encontrou um emprego como vendedor de pastéis. A escala de trabalho era flexível e se adaptava bem ao seu estilo de vida “despojado” de horários fixos. Pelo bem ou pelo mal, Ernesto agora tinha um emprego.

Ernesto resolveu, então, que tentaria corrigir os erros do passado. Contudo, não há como corrigir erros do passado, por definição, certo? Ernesto pensou, pensou e, como não queria pedir desculpas para todos os atingidos por seus erros – o orgulho ainda lhe era caro – resolveu que iria dizer o que – para ele – eram algumas verdades. Desta forma, em seu raciocínio peculiar, estaria “corrigindo” erros do passado. Determinado a ser um (quase) novo homem, Ernesto jurou para si mesmo que começaria  sua nova fase no dia seguinte, ou seja, na véspera de Natal.

À sua frente, a mesa farta de pratos aparentemente apetitosos. Ao seu lado, vários parentes e novos agregados que, por bem ou por mal, ele conhecia superficialmente. Ernesto buscou em sua mente fragmentos de lembranças sobre sua vida e sobre cada um dos que ali estavam. Foi um esforço grande, porque Ernesto tinha que varrer toda sua vida contaminada para encontrar algum momento de convivência sincera.

Com algum esforço lembrou-se do marido de uma prima que se encontrava, para sua sorte, na cadeira ao lado.

– Puxa, Franz, esta na foto é a Michelle?

– Sim, sr. Ernesto.

– Como ela cresceu!

– Pois é. Fazem anos que não nos vemos, né? Desde quando ela era criança.

– É. Ela está bonita, mas continua burra?

– Como?

– Vamos ser honestos, eu não gosto de desonestidade. Ela é bonita, mas sempre foi muito ruim na escola. Não vejo mal algum em falarmos abertamente que ela tinha dificuldades mentais.

– O senhor está maluco, tio Ernesto?

– De forma alguma. Agora sou um homem limpo, honesto. Não sou mais como antes. Antes sim, eu era maluco. Agora, eu procuro ajudar as pessoas a entenderem a verdade.

– Tio Ernesto, acho que todos buscamos a verdade, o que o leva a achar que…

– Não, Franz, não seja tão limitado. Vamos seguir em frente. Sem agressões. O fato é que sua filha era meio burrinha mesmo. Veja, eu passei por muita coisa na vida e agora sou um novo homem. Você teve as experiências que tive, Franz?

– Não, bem…

– Pois é. Então, Franz, meu caro, não tente se achar superior.

– Eu, como?

– Admita e ouça o que tenho a lhe dizer. Sua filha era burra. Deve ser burra ainda. Talvez seja burra para sempre. Faz parte da vida.

Assim, de forma supostamente renovada e iluminada, Ernesto inaugurou sua nova fase de vida, em que seus palpites – que ele achava serem verdadeiras gotas de sabedoria – eram distribuídos aleatoriamente a todos, mesmo que nunca ninguém tivesse pedido por eles. Não dá para dizer que aquela ceia de Natal foi exatamente feliz, mas, afinal, para Ernesto, foi o começo de uma nova vida, embora nem todos concordem com isso.

O entusiasta do aprendizado

Desde que se entendia por gente era assim. Ainda criança, aprendeu a ler e a escrever.

– Letras! Palavras! Tantas combinações! Certamente mudará meu jeito de pensar…aliás, alguém poderá mudar várias coisas no mundo se….

Depois foram os números.

– Matemática é sensacional! Como é legal somar, subtrair, parece magia…alguém que domine isto certamente entenderá tudo no mundo…

Com o andar da carruagem da idade, nosso entusiasta aprendeu novas disciplinas.

– Geografia molda o mundo! Como alguém pode achar que será algo na vida sem estudar a geografia!

– História!! O passado tem tudo a me ensinar! Lições do passado certamente me ajudarão a ser alguém na vida…

– Física é tão interessante…como alguém pode achar que é inteligente se não entende dos processos físicos que nos cercam…

– Química é quase um milagre! Impossível mudar o mundo sem saber esta disciplina! Por que não me ensinaram isso antes?

Assim, a cada nova disciplina aprendida, o entusiasta quase enlouquecia de alegria. Para ele, cada disciplina teria uma forma de raciocínio peculiar que seria, em si, a fórmula para que ele mudasse o mundo de alguma forma.

Então veio o vestibular e ele escolheu um curso. A cada disciplina, o mesmo ritual. Cada uma dela conteria, segundo ele, a solução para resolver todos os problemas do mundo.

Como sabemos, as estações do ano não param e o entusiasta continuava sua inconsistente, mas entusiasmada jornada em busca da pedra filosofal que, imaginava, iria satisfazer sua fome de conhecimento. Não satisfeito com a graduação, avançou para o mestrado, o doutorado e buscou trabalhar sempre complementando a Academia com o mundo não-acadêmico.

Um dia, já muito velho, deu-se conta que a solução da pergunta que nunca conseguira formular jamais existiria. Nem cada disciplina, nem combinações das mesmas, nada disso importava. O que tinha importado para ele, o tempo todo, tinha sido a sua satisfação em aprender. Não fora uma jornada linear, não havia sido sempre fácil ou simples. Não. Foi uma luta ansiosa em busca de uma resposta incerta de uma pergunta que, se existiu alguma vez, foi ofuscada pela alegria de aprender.

Morreu sorrindo.

Finalmente descobri que…

Passei anos da minha vida achando que tinha um retardo mental, que era um retardado mesmo (retardados não dizem “retardo mental”). Tudo porque sempre, sendo canhoto, ficava com o laço do calçado do pé direito frouxo com inevitáveis pausas na caminhada – para incômodo dos amigos – para tentar um novo (e potencialmente fracassado) laço com o cadarço do pé direito.

Muitas hipóteses me passaram pela cabeça nestes anos todos: (a) os cadarços poderiam vir com um defeito sempre no pé direito, (b) os cadarços do pé direito foram criados por alienígenas que pretendiam conquistar a Terra numa batalha em que soldados teriam que parar para tentarem laços em seus coturnos desamarrados…, (c) eu vivia em um universo paralelo (aquele em que o Spock tem barba) e, no pior dos pesadelos, no universo normal o cadarço do pé esquerdo é que seria o problema.

Não vou listar todas as hipóteses para não cansar ninguém. Passou-me pela cabeça até que eu jamais passaria no vestibular e seria um fracasso na vida, terminando-a na sarjeta, esmolando e sendo discriminado pela sociedade. Claro, esta aí não durou um segundo na minha mente porque tenho alguma noção de ridículo.

Foram anos pensando nisto, tentando entender o que eu era, os motivos para estar sendo poupado pela vida selvagem da sociedade a despeito de não conseguir dar um nó decente no cadarço direito. Talvez tenha escolhido o que escolhi por conta disto. Talvez esta fosse minha mais marcante característica genética, uma condenação eterna me dada pela loteria da natureza.

Até que descobri que um colega tem o mesmo problema, só que no pé esquerdo. Desde aquele dia eu me senti bem mais aliviado. Isso foi há umas duas semanas. Eu fiquei feliz em perceber que não era único. Contudo, de uns dias para cá, começo a pensar nos motivos de existirem pessoas assim. Será que somos ligados a alguma missão oculta em nosso cérebro, a ser ativada por nano-robôs que foram colocados em alguns de nós logo após o parto, por uma sociedade secreta? A verdade está lá fora? Se sim, onde é o lado de dentro? A quem interessa esconder da sociedade que existem pessoas que não conseguem dar um nó no cadarço de apenas um pé?

Percebo que a conspiração é maior do que pensava…