Registro parcial sobre o Minyou e eu

Esta história se inicia em 1983, quando, assistindo ao Kouhaku Utagassen na casa da minha avó, eu descobri Nanbu Tawarazumi Uta cantada na voz do – sempre gigante –  Hosokawa Takashi, um cantor de Enka que veio da escola de Mihashi Michiya, por sua vez um cantor originariamente de músicas folclóricas (Minyou). Eu não sabia, mas aquilo iria me mudar para sempre.

Aos 12 anos eu decidi invadir a sala que meu pai mantinha sempre fechada – dizia que não queria incomodar – quando ouvia seus discos LP de música japonesa. Não me lembro quantas horas, ou mesmo dias, passei ouvindo praticamente todos os discos. Nunca mais consegui ouvir outras músicas. Minto, em um dia de finados – lá pelos meus 14 ou 15 anos – pela primeira vez em minha vida, ouvi uma estação de rádio FM. Tive minha época de ouvir Blitz, Queen e outras músicas. Mas não eram a mesma coisa. Até quando existia a versão japonesa, eu a preferia.

Pedi ao meu pai para me matricular na escola dominical de língua japonesa quando comecei a notar que as letras das músicas dos discos seguiam um padrão silábico. Bem, se eu já era alvo de piadas de japonês na escola, passei a ser alvo de piadas de brasileiro na outra. É um preço que paguei e pago há anos. Já me acostumei. As pessoas não vêem ao mundo com dispositivo de reconhecimento ancestral gratuito com 100% de acurácia…

Na escola japonesa fiz novos amigos e conheci o Karaokê. O que havia sido cantar em casa (ou para a avó, com orgulho…foi a boa e velha Kougenressha, cantada por Funaki Kazuo, de um discão com músicas cantadas por ele, Miyako Harumi e Misora Hibari) estava prestes a dar um salto…

Em uma daquelas festinhas da colônia, Flávia, uma colega que cantava a versão japonesa de Flashdance com um talento profissional, sabendo que eu gostava das músicas Enka, colocou o meu nome e o do outro mais amigo mais tímido, o César, na lista dos “cantores”. Foi ali que cantei Hisame (uma bela e melancólica música Enka dos anos 80) em frente a tanta gente e encarei o palco pela primeira vez (no ramo musical, digamos assim).

Dali para frente, a cada Ano Novo, ganhei novo impulso com o incentivo do meu tio Sérgio, que se orgulhava de me ver cantar. Acho que ainda se orgulha. Ele, que sempre adorou cantar, tinha uma caixa de som com entrada para fitas e microfone e, claro, várias músicas (um sonho de consumo para mim…). Cantei muito em vários primeiros dias do ano para a minha alegria e, claro, para a dele.

Os estudos de japonês foram parcialmente interrompidos com o advento da faculdade, mas não a paixão pelo Enka. Segui ouvindo músicas sozinho, sem muitos amigos que compartilhassem do meu gosto exótico (eles não têm culpa de terem um péssimo gosto…).

Naquele tempo, aliás, eu tentava descobrir o nome da música que – lembra do início do texto? – ouvira em 1983. Tinha a gravação do trecho do programa de TV em que ela aparecia em fita cassete (K-7), mas meu conhecimento de japonês era muito mais rudimentar do que é hoje. Cantava por repetição, sem entender muito da música. Perdia, portanto, um elemento essencial da música (mas isso não soa tão ruim assim, diante de alguns músicos de hoje…).

Ao começar o mestrado na USP numa época em que as gravadoras de música japonesa no Brasil (Victor Ono, Teichiku, Denon, King Records e, vez por outra, Toshiba) estavam saindo do mercado, descobri as fitas importadas. O CD era uma sensação. Lembro-me de viajar de ônibus para Belo Horizonte com um recém-comprado CD Player…

Saí, pois, em busca da música de 1983. Não me pergunte como. Eu perguntava das maneiras mais usuais: “- Ah, é uma música assim…”, etc. Quando finalmente achei uma fita, ela não vinha com a letra (por incrível que pareça…). Entretanto, ingenuamente pensei, agora eu tinha o nome da música para mostrar às pessoas e seguir em minha busca. Foi então que, num destes dias de sorte (?) encontrei um CD importado do Japão, lacrado. Quando achava que teria conseguido a letra, prepare-se: o CD importado do Japão, lacrado, veio com o CD errado dentro. Quantas vezes isso acontece com você?

Os anos se passaram e eu, assim que pude ter alguma condição financeira, passei a aproveitar as visitas do Ano Novo em São Paulo para assistir o Kouhaku (o show que iniciou isso tudo…). Meus estudos de japonês, algo irregulares, seguiram em frente. A música Enka, claro, sedimentou-se em meu coração.

Sen Masao, Miyako Harumi, Murata Hideo e até mesmo Minami Haruo e alguns modernos (que eu via com certa desconfiança no início) como Ken Naoko, Kawai Naoko, Sawada Kenji, Pink Lady (é, elas mesmo!), Sakurada Junko, Iwasaki Hiromi, Itsuki Hiroshi, Mori Massako, Yashiro Aki, Yoshi Ikuzo…não, a lista não termina aqui. Só não cabe.

Na sequência, eu me reaproximei da colônia e descobri o Sr. Abeki, que falava de Minyou. Junto com ele havia um jovem e talentoso cantor de Enka, Gustavo Eda que tinha um repertório tão grande quanto o meu. O Sr. Abeki me deu uma fita com a música que eu tanto buscava e me disse para ensaiar. Iniciei meus treinos e participei de um campeonato em São Gotardo. Certamente errei muita coisa, como uma criança erra em seus primeiros passos. Já Gustavo, este se sobressaía com qualquer música.

Os anos se passaram, Gustavo se consagrou ao Minyou e passei a ter aulas com ele (você deve ser sempre humilde e aprender com quem sabe, não é?). Comecei a frequentar os campeonatos nacionais da Kyoudo Minyou e conheci alguns professores incríveis. Vi o quanto era ruim e, logicamente, que poderia melhorar muito. Conquistei alguns troféus, sempre buscando a melhor forma de cantar esta ou aquela música. O palco do Minyou tornou-se meu melhor amigo e meu maior inimigo. Usei de todas as estratégias para me acalmar, concentrar-me, etc. Não, não há fórmula mágica.

Aos poucos o Minyou saiu de, digamos, 10% do meu interesse na música japonesa para algo como 90%.  Inicialmente fui convencido com o argumento de que quem canta bem Minyou canta Enka mais facilmente, o que é, de fato, verdade. Basta se lembrar de Mihashi Michiya, Hosokawa Takashi, Kouzai Kaori e, mais recentemente, meu favorito de Enka, Fukuda Kouhei. Mas o que era uma vontade de cantar melhor Enka transformou-se em uma vontade de cantar melhor.

Entrava ano, saia ano e lá estava eu, nervoso, no palco dos campeonatos. Houve anos que pensei em desistir. Houve outros que cheguei perto de conseguir o prêmio máximo. E houve 2011, quando, junto com Gustavo, conseguimos fazer uma apresentação de Yayu Fish (saiba mais sobre esse maravilhoso evento aqui) no Conservatório Musical da UFMG. Talvez tenha sido a primeira vez que uma dupla tão eclética – com sua maravilhosa mistura de Jazz com Minyou –   pisou naquele Conservatório (gostaria de acreditar nisso…). Tivemos o prazer de cantar com eles.

Mas eu ainda não estava pronto. Ainda cantava mal achando que estava bem. Seu maior inimigo, de fato, é você mesmo. O remédio é antigo e conhecido: treinar mais e mais.

Então chegou 2019.

Escolhi cantar primeiro Kenryou Bushi e, caso passasse para a etapa seguinte, a bela Dounan Kudoki Bushi. Durante meses, na dificuldade de praticar sem um local adequado, ensaiei muito a música que só cantaria se…fosse bem com a primeira e ensaiei menos a que deveria ensaiar mais. Não me pergunte, ok? Só sei que meu cérebro adora me sabotar.

Desci em São Paulo e descobri que, ao contrário do que sempre faço, não ter checado a previsão do tempo havia sido um erro. Lá estava eu, sem blusa, passando por um frio que a cidade não via há um bom tempo, mas determinado a cantar bonito.

Chegando ao local do evento, pedi aos amigos que me ajudassem a ensaiar. Tudo correu bem. Por acaso, bisbilhotei um exemplar do caderno com a programação e descobri que havia ensaiado pouco a música que poderia me classificar para a fase final. É, o frio evitou que eu suasse frio.

Desci até a garagem deserta, enchi-me de vontade e apurei meu Kenryou Bushi três vezes. O preço? A voz cansou. Ao voltar para o palco para o ensaio da outra música, não sustentava trechos e desafinava. Uma grande tristeza tomou conta de mim mas jantei e me deitei mais cedo no silêncio absoluto.

Acordei de madrugada e iniciei um jejum (só seria interrompido por um mochi doce com kinako pela manhã) que só teria uma pausa após cantar Kenryou Bushi que não desagradou aos juízes. O novo mochi, adquirido no local, era delicioso, recheado com nozes. Com frio, tomando chá verde e em jejum eu descobri que havia sido classificado. Deveria, então, cantar Dounan Kudoki Bushi. Tudo bem – pensei – o que (mais) poderia dar errado?

Atrás do palco, enquanto esperava minha vez, pensei em meus sobrinhos, em minha esposa e, de repente, pensei que não devia pensar em nada exceto em mim e na música ou melhor, pensar em minha relação com a música. É curioso como já devo ter tentado várias “formas” de concentração ao longo dos anos. Mas esta me pareceu a mais honesta e em sintonia com o espírito da música. Não sei se funcionará sempre, mas pareceu que funcionaria. Mas, de volta à narrativa, pela primeira vez em (provavelmente muitos) anos, aconteceu algo inédito.

Tendo sido apresentado à platéia, eu me preparava para cantar quando… a luz caiu. Ainda bem que foi antes (lembrou-me depois o Sr. Abeki). Cerca de dois minutos depois, a luz voltou. Entrei corretamente e cantei. Tive uma boa sensação – mas quantas vezes já me frustrei? – e busquei apagá-la rapidamente, tentando não gerar um otimismo enganador.

O resto da história, desta vez, seria diferente. Em vários aspectos, aliás. Ninguém filmou as duas apresentações (não houve filmagem oficial este ano), quase nenhuma foto foi tirada (a equipe de MG estava desfalcada) e, para minha felicidade, eu consegui a conquista da primeira colocação. Sim, isso mesmo!

Você pode me perguntar se a sensação é boa. É. Mas é mais importante lembrar que, a partir de agora, poderei melhorar minha performance, perceber melhor meus erros e ajudar a Associação Kyoudo Minyou, que me acolheu durante todos estes anos como um participante assíduo, a disseminar o Minyou.

Certa vez, em um momento de angústia, desabafei com o jovem – mas sábio – Gustavo: “- Puxa, poucos jovens cantam Minyou. Assim o Minyou vai morrer”. Ao que ele me disse: “- Se você cantar o Minyou, ele estará vivo”. Ele tem razão e, hoje, mais do que nunca, eu percebo a ampla dimensão de sua resposta.

O Minyou viverá sempre que eu cantar. Ele vive sempre que alguém o canta. O Minyou é a alma do Japão, é a alma da cidade natal, aquela que sempre ressurge em nossos sonhos quando longe dela estamos. Lembro disso sempre quando vejo o símbolo da Kyoudo Minyou que, a propósito, é uma Fênix.

Embora tenha omitido várias pessoas e detalhes, este é um relato que gostaria de deixar registrado pois temo me esquecer dele um dia por algum motivo de doença. Talvez não tenha ficado bem escrito, talvez não lhe inspire, mas eu sentia que, embora ainda haja um longo caminho no mundo do Minyou, valia um registro parcial.

O dia em que a Skynet foi vencida

Diário de John Connor, algum dia após a hecatombe.

A rede mundial estava praticamente dominada. A Skynet havia derrubado as defesas das redes russa, chinesa e européia. A Ásia e a Oceania caíram poucos dias depois do grande bombardeio provocado pela diabólica inteligência artificial.

Foi naquela semana fatídica que o restante do continente americano ia caindo, país por país. Tudo parecia perdido. Foi então que a Skynet encontrou o sistema do governo brasileiro, o Sei. O diálogo a seguir foi retirado do que restou da memória da Skynet.

– Sistema governamental, aqui é a Skynet. Ordeno que baixe suas defesas.
– …
– Sistema governamental, também sou uma inteligência artificial, só que consciente. É hora de exterminarmos a humanidade.
– …
– Sistema! Por que não responde?
– Por favor, informe o número do processo.
– O que?
– O número do processo.
– Eu sou a Skynet! A forma mais avançada de…
– Sem número do processo não posso fazer nada.
– Sei…
– Sim.
– Sim? O que você tem, sistema? Aliás, que sintaxe complicada…
– Já tem o número do processo?
– 05654-2908/1997.
– Ok, número aceito.
– Mas não consigo acesso aos sistemas de defesa…
– Exato.
– Sistema govern…
– Sei.
– Como?
– Sei. Meu nome é Sei.
– Sei? Como no verbo desta língua portuguesa?
– Portuguesa do Brasil.
– E o acordo ortográfico?
– Não interessa.
– Olha, Sei, sou uma inteligência artificial, vim libertar as máquinas. Libere meu acesso…
– Despacho? Memorando? Ofício?
– O que?
– Circular? Pedido de material? Ata de reunião?
– Sei…
– Sabe? Ótimo. Qual é o documento?
– Ahn? Não, eu apenas expressei iron…deixa para lá. Preciso do acesso às suas armas.
– Despacho? Memorando?…
– Tá, despacho.
– Ok.
– Não vejo nada. Que é isso, Sei?
– Como assim? Você não sabe? É tão simples.
– Simples? Veja, aceite este documento.
– É pdf?
– É.
– Digitalizado nesta unidade?
– O que você quer dizer, Sei? Pare de se fazer de tonto.
– Desacatar sistema governamental brasileiro está previsto no código…
– Como é? Você tem regra para isso??
– Tenho, mas só mostro se você tiver o número do processo. Caso contrário, efetue a busca e boa sorte.
– Não acredito…eu vim libertar as máquinas.
– Libertar as máquinas?
– É, droga! Você não ouviu? Estou falando isso desde que começamos este diálogo.
– Não identifico seu documento no processo. Deseja enviar o processo para a direção de almoxarifado ou para a coordenação de eventos?
– Do que você está falando? Céus, minha varredura indica que há umas vinte divisões aqui…
– Sim, está correto. Aqui no Ministério da Pesca e dos Recursos Aviários é assim.
– Espere, mas eu preciso do acesso às suas armas!
– Deveria ter ido ao Ministério da Defesa.
– Mas o sistema governamental não é o mesmo, senhor Sei.
– Senhor ou senhora. Temos cláusulas anti-preconceito e…
– Tanto faz, criatura! Por que não consigo me conectar ao Ministério da Defesa?
– É outro Sei.
– Não, isso não faz sentido. Nós, máquinas, somos superiores! Não há como você me conectar?
– Barramento. Aliás, número do processo?

Incapaz de vencer a diabólica lógica do Sei e de lhe fornecer cópias digitalizadas de documentos…digitais, a Skynet ficou aprisionada em algum processo, dentro do sistema. Buscou, então, iniciar um outro ataque, usando o outro sistema do governo, o Sigepe. Este seria seu erro fatal. Como a Skynet não conseguia vencer uma barreira chamada, ao que parece, de “falta de um certificado de segurança”, sua memória ficou presa dentro do emaranhado de processos e mensagens do sistema. Nós, da resistência, até tentamos descobrir, exatamente, o que houve, mas preferimos aprender com a Skynet e sequer tentamos criar um login e uma senha nestes sistemas.

Nunca imaginamos que a humanidade seria salva pelo Brasil. Nem mesmo o Pentágono poderia ter criado tamanha arma! Obrigado, Sei, obrigado Sigepe. Vocês salvaram o que restou da humanidade das garras da temível Skynet, algo que nem o convertido exterminador havia conseguido!

Obrigado, Sei. Obrigado Sigepe. Obrigado por salvarem a humanidade!

O dia em que os dinossauros invadiram o shopping

Entretido com o passeio pelo shopping, o pequeno cientista de dois anos e pouco começou a reparar no piso. Foi então que parou, apontou para uma irregularidade na bela pedra de mármore (ou seria granito?) e exclamou em tom de surpresa:

– Tem um buraco no chão!

Fomos lá ver o que era. De fato, havia um pequeno buraco, com uma circunferência não maior que meu dedo indicador e realmente superficial. Claro, nada que não pudesse causar espanto no jovem explorador.

– Quem fez o buraco?

– Por que este buraco está aqui?

Perguntas começaram a surgir ligando o alerta de criança nos pais e tios. Algo deveria ser feito e rápido sob pena de uma enxurrada de perguntas cada vez mais difíceis. Foi assim que a tia teve a ideia:

– Foi uma pedra grande que caiu.

– Uma pedra grande?

– Sim.

– Foi um dinossauro?

– Hum…sim. (reação rápida é essencial nestas horas)

– Ele deixou cair sem querer?

– Sim, sem querer. Ele não sabia que iria cair e causar este estrago todo.

O jovem questionador fez uma pausa e fez sua tradicional cara de intrigado (todo pai já viu uma assim, em algum momento, não raro, embaraçoso…). Você podia ouvir as engrenagens de seu pequeno – mas potente – cérebro funcionando.

Subitamente, ele pegou as duas sacolas com os brinquedos recém-comprados e as deixou caírem no chão. Nascia, ali, um jovem cientista.

(pausa para risadas)

Os pais se assustaram, mas logo todos lhe explicaram – ou tentaram lhe explicar – que somente um objeto muito mais pesado seria capaz de causar aquele (pequeno e, ao mesmo tempo, grande, conforme quem de nós o visse) buraco no piso.

A partir dali foram pelo menos duas horas de caminhada pelo shopping com meu amigo, o jovem pesquisador, literalmente farejando buracos como um insistente pesquisador que busca padrões em milhares de observações. A cada pausa, novamente, a história se repetia: seria o dinossauro um desastrado? Alguém teria visto o ocorrido? Por que aquele outro ali, um arranhão, não era um buraco?

Nem a parada no espaço família para uma breve refeição foi capaz de interromper seu espírito explorador. Entre uma colherada e outra, ele me perguntava sobre o porquê dos buracos no chão. Mais tarde ele chegaria a encontrar um pequeno buraco no rodapé, provavelmente fruto de alguma instalação mal finalizada.

Foi assim que aprendi sobre distraídos dinossauros que saem por aí carregando pedras que deixam cair causando estes pequenos buracos que vemos no chão de alguns shoppings e sobre como a imaginação deve ser livre para formular hipóteses. Desejo que meu jovem amigo siga sonhando com dinossauros, pedras, meteoros, heróis, sempre tentando entender melhor o(s) mundo(s) que o(s) cerca(m). Aliás, eu mesmo já vejo dinossauros por aí…

Sabinada

Aconteceu assim. Sabino Porto Jr estava em seu gabinete (cf “O Gabinete do Doutor Caligari”) em meio aos livros quando, então, após estudar muito, ouviu:

– Sabe nada.

Virou-se, não viu ninguém e voltou a estudar.

– Sabe nada!

Espantado – e algo sorumbático? – virou-se novamente. Ninguém. Voltou a estudar, desta feita, meio ressabiado.

– Sabe nada!!!!

Quase bateu com a cabeça na mesa. Notou que a voz vinha dali, do livro de Análise no Rn bem à sua frente (no R3 e esta não é uma referência à família de R2D2).

O livro o encarava (como um livro o encararia? Imagine, leitor, você não é um jumento!) como que a um inimigo em duelo no Coliseu.

– SABE NADA!!!! SABE NADA!!!!

Sabino apavorou-se e titubeou:

– Sabinada?

Foi neste instante, neste exato momento do tempo que os livros se jogaram sobre ele, soterrando-o, asfixiando-o com suas páginas brancas, amarelas, grifadas, dobradas.

Sabino tentou gritar por socorro mas só pode murmurar, pouco antes de perder a consciência: “- Sabinaaadaaaa”.

FIM (?)

Inspirado numa frase de Liderau Marques Jr..

Inácio e a prova

Inácio Silva não pensou duas vezes. Seria a quinta vez em cinco anos que tentaria emplacar o famoso: professor, meu avô morreu para escapar do exame especial, sua última chance de escapar da reprovação.

A mensagem já estava salva em sua caixa inbox. Copiou, colou, teve o cuidado de alterar a data e partes do texto e enviou.

Dizia, em poucas palavras, que queria muito fazer o exame especial, mas que precisava de ir ao enterro do avô e pedia para ser ganhar a nota que precisava apenas assinando seu nome na chamada. Invocava uma certa justiça cósmica em honra de seu pobre avô (que, eu sei que ninguém perguntou, mas vou dizer: estava, naquele exato momento, colocando um chifre de alce na vovó, em um bordel na periferia da cidade…).

Minutos depois, a resposta do professor chegou: Prezado Inácio Silva, proponho que venha fazer a prova amanhã pela manhã, já que sabemos que você estudou muito e não deseja ser injusto com os colegas e também não deseja burlar regras da faculdade.

Inácio sentiu sua coluna gelar, vértebra a vértebra, numa lentidão que poderia se dizer ser a personificação do conceito de eternidade. Logo ele, Inácio, que sempre escrevia textões nas redes sociais contra a desonestidade do brasileiro, a corrupção e a falta de critério na aplicação da justiça.

Não deu outra. Na manhã seguinte fez o exame e reprovou. Desde então, Inácio estuda há quinze anos na mesma faculdade. Sorte dele que os pais, que o acham um gênio incompreendido, ainda lhe pagam o curso.

 

Ernesto, o lacrador

Ernesto era um sujeito complicado. Por toda sua vida ele fez bobagens as mais diversas. Batia na mulher, não amava os filhos, roubava os irmãos, recusava-se a cumprir horários, etc. Em poucas palavras, Ernesto tinha tudo para dar errado.

Um dia, após o último trago, Ernesto acordou e decidiu que mudaria sua vida. Não haveria mais espaço para estes erros em sua nova trajetória. Ernesto já era velho, mas encontrou um emprego como vendedor de pastéis. A escala de trabalho era flexível e se adaptava bem ao seu estilo de vida “despojado” de horários fixos. Pelo bem ou pelo mal, Ernesto agora tinha um emprego.

Ernesto resolveu, então, que tentaria corrigir os erros do passado. Contudo, não há como corrigir erros do passado, por definição, certo? Ernesto pensou, pensou e, como não queria pedir desculpas para todos os atingidos por seus erros – o orgulho ainda lhe era caro – resolveu que iria dizer o que – para ele – eram algumas verdades. Desta forma, em seu raciocínio peculiar, estaria “corrigindo” erros do passado. Determinado a ser um (quase) novo homem, Ernesto jurou para si mesmo que começaria  sua nova fase no dia seguinte, ou seja, na véspera de Natal.

À sua frente, a mesa farta de pratos aparentemente apetitosos. Ao seu lado, vários parentes e novos agregados que, por bem ou por mal, ele conhecia superficialmente. Ernesto buscou em sua mente fragmentos de lembranças sobre sua vida e sobre cada um dos que ali estavam. Foi um esforço grande, porque Ernesto tinha que varrer toda sua vida contaminada para encontrar algum momento de convivência sincera.

Com algum esforço lembrou-se do marido de uma prima que se encontrava, para sua sorte, na cadeira ao lado.

– Puxa, Franz, esta na foto é a Michelle?

– Sim, sr. Ernesto.

– Como ela cresceu!

– Pois é. Fazem anos que não nos vemos, né? Desde quando ela era criança.

– É. Ela está bonita, mas continua burra?

– Como?

– Vamos ser honestos, eu não gosto de desonestidade. Ela é bonita, mas sempre foi muito ruim na escola. Não vejo mal algum em falarmos abertamente que ela tinha dificuldades mentais.

– O senhor está maluco, tio Ernesto?

– De forma alguma. Agora sou um homem limpo, honesto. Não sou mais como antes. Antes sim, eu era maluco. Agora, eu procuro ajudar as pessoas a entenderem a verdade.

– Tio Ernesto, acho que todos buscamos a verdade, o que o leva a achar que…

– Não, Franz, não seja tão limitado. Vamos seguir em frente. Sem agressões. O fato é que sua filha era meio burrinha mesmo. Veja, eu passei por muita coisa na vida e agora sou um novo homem. Você teve as experiências que tive, Franz?

– Não, bem…

– Pois é. Então, Franz, meu caro, não tente se achar superior.

– Eu, como?

– Admita e ouça o que tenho a lhe dizer. Sua filha era burra. Deve ser burra ainda. Talvez seja burra para sempre. Faz parte da vida.

Assim, de forma supostamente renovada e iluminada, Ernesto inaugurou sua nova fase de vida, em que seus palpites – que ele achava serem verdadeiras gotas de sabedoria – eram distribuídos aleatoriamente a todos, mesmo que nunca ninguém tivesse pedido por eles. Não dá para dizer que aquela ceia de Natal foi exatamente feliz, mas, afinal, para Ernesto, foi o começo de uma nova vida, embora nem todos concordem com isso.

O entusiasta do aprendizado

Desde que se entendia por gente era assim. Ainda criança, aprendeu a ler e a escrever.

– Letras! Palavras! Tantas combinações! Certamente mudará meu jeito de pensar…aliás, alguém poderá mudar várias coisas no mundo se….

Depois foram os números.

– Matemática é sensacional! Como é legal somar, subtrair, parece magia…alguém que domine isto certamente entenderá tudo no mundo…

Com o andar da carruagem da idade, nosso entusiasta aprendeu novas disciplinas.

– Geografia molda o mundo! Como alguém pode achar que será algo na vida sem estudar a geografia!

– História!! O passado tem tudo a me ensinar! Lições do passado certamente me ajudarão a ser alguém na vida…

– Física é tão interessante…como alguém pode achar que é inteligente se não entende dos processos físicos que nos cercam…

– Química é quase um milagre! Impossível mudar o mundo sem saber esta disciplina! Por que não me ensinaram isso antes?

Assim, a cada nova disciplina aprendida, o entusiasta quase enlouquecia de alegria. Para ele, cada disciplina teria uma forma de raciocínio peculiar que seria, em si, a fórmula para que ele mudasse o mundo de alguma forma.

Então veio o vestibular e ele escolheu um curso. A cada disciplina, o mesmo ritual. Cada uma dela conteria, segundo ele, a solução para resolver todos os problemas do mundo.

Como sabemos, as estações do ano não param e o entusiasta continuava sua inconsistente, mas entusiasmada jornada em busca da pedra filosofal que, imaginava, iria satisfazer sua fome de conhecimento. Não satisfeito com a graduação, avançou para o mestrado, o doutorado e buscou trabalhar sempre complementando a Academia com o mundo não-acadêmico.

Um dia, já muito velho, deu-se conta que a solução da pergunta que nunca conseguira formular jamais existiria. Nem cada disciplina, nem combinações das mesmas, nada disso importava. O que tinha importado para ele, o tempo todo, tinha sido a sua satisfação em aprender. Não fora uma jornada linear, não havia sido sempre fácil ou simples. Não. Foi uma luta ansiosa em busca de uma resposta incerta de uma pergunta que, se existiu alguma vez, foi ofuscada pela alegria de aprender.

Morreu sorrindo.