Mulheres que não dormem são mais felizes?

Desde seu casamento, Mayami (vamos chamá-la assim para preservar seu verdadeiro nome) sonhava com novos armários em sua casa. Sonhar talvez não seja o melhor termo. Talvez o fato de ela esbarrar em caixas por toda a casa fosse o real motivo deste desejo.

Assim que a grana poupada bateu no teto, disparou-se o processo. Seu marido, Zláudio (vamos chamá-lo assim para, também, preservar sua verdadeira identidade), fez o comunicado: Mayami, estamos com a grana. Pense nos móveis.

A partir daí começou uma incansável rotina na qual Mayami passava noites sem dormir projetando os móveis conforme seus desejos geométricos mais profundos. Coisa de Niemeyer mesmo, só que com racionalidade matemática. Zláudio se deitava, ligava a TV e não via a esposa: lá na sala, entre caixas e caixas, Mayami projetava seus móveis.

Próxima da exaustão, eis que se contrata o marceneiro. Projetos e preços entregues, Mayami achou que descansaria. Ledo engano. Começara o período da ansiedade. No meio da noite ela se levantava, ia até a sala e começava a rever medidas. Zláudio continuava a dormir com a TV no modo sleep.

Passado mais um tempo, chegou o dia glorioso. O marceneiro anunciou que a suruba de martelos, pregos, furadeira, madeira e afins duraria três dias. Coisa de império romano em épocas decadentes mesmo. Se Nero fosse marceneiro, seria o primeiro a entrar na farra.

Mayami, feliz da vida, pensou que dormiria tranquila. Mas aí começaram as preocupações. Puxa-se uma tomada aqui, refaz uma gaveta ali, etc. Na hora de colocar os vidros nos móveis, mais preocupações pois, afinal, vidro é vidro. Zláudio, com sua coluna vertebral ligeiramente danificada, não podia mesmo ajudar muito, mas tentou ser mais presente do que o habitual. Como sempre, dormia sem ver a esposa que agora se extasiava com os novos móveis.

Zláudio, não são lindos?

São.

Mas será que este móvel não ficou grande?

Não, tá ótimo. Você mesma o projetou. E eu gostei muito.

Mas e se o vidro quebrar?

Não, não quebra. O vidraceiro garantiu.

Eu deveria ter escolhido outra cor.

Não, não. Tá bom. Esta cor tá ótima.

E se acontecer uma guerra nuclear?

Garanto que os móveis aguentam. Já este seu marido aqui…

Finalmente, com os móveis montados, Zláudio achou que Mayami descansaria. Ledo engano. Agora Mayami brincava como uma criança feliz, arrumando e rearrumando toda a bagunça. A TV, sempre no modo sleep, anunciava o início da arrumação noturna.

O mais fascinante foi que as 12 caixas de copos, vidros, xícaras e pratos finalmente foram abertas. Umas duas preencheram seu lugar de honra na cristaleira. Já as outras…

Zláudio, olha, já consegui esvaziar umas duas caixas!

Progresso…progresso…

Mas…as outras…

É, eu sei. Não precisa me dizer: a gente precisa mesmo é de um apartamento maior.

Será que eu durmo esta noite?

Sim, você consegue, eu sei. Não se preocupe.

Se ela dormiu? Na manhã seguinte, após levantar, Zláudio observou que um dos móveis da sala já se encontrava com ligeiras mudanças em seu conteúdo…

(Possível) Moral da história: mulheres e móveis são como homens e carros (ou homens e gagdets eletrônicos).

Gostou da historinha? Então leia mais na segunda edição impressa de Tire a mão da minha linguiça.

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