Uma história (quase) verídica

O famigerado item ZERO

Quinta-feira, manhã, ali pelas dez horas. O início da aula havia sido conturbado porque, como de costume, a intranet não dava sinais de vida. Eu com minhas notas de aula na mão – com as soluções das questões e, claro, as questões em algum servidor inacessível pela tal rede mundial de computadores. Já imaginava em começar com:

“- Pessoal, vamos lá, a resposta é (t^2)*(z1)^(0.5). Qual é a pergunta?”

Comecei com um exercício da aula anterior. Tudo corria bem quando resolvi acreditar na Estatística: tentei aleatoriamente e a intranet – Milagre! – funcionou. Antes que saísse do ar novamente, abri o meu email e baixei meus slides com os enunciados das questões. Sentia-me (quase) feliz e aliviado. Sim, lá estava eu em meio a uma aula de exercícios com questões do exame da ANPEC.

Os alunos que sempre saem da sala porque não querem mesmo estudar Microeconomia, com a desculpa de que há poucos exercícios na aula, eram os mesmos que saíam porque…havia exercícios. Surpreendente? Nem tanto. Como o mundo não pára por conta do umbigo deste ou daquele aluno, prossegui. Cálculos aqui, acolá, ali, acima, abaixo,…..e toma-lhe funções de produção! A temível função CES, a famosa Cobb-Douglas e os alunos testando seu potencial com derivadas, numa ótima oportunidade de rever a utilidade dos cursos de Cálculo.

O clima na turma estava bom. Vários tentaram se superar, outros buscavam pistas em livros e eu tentava fazer com que todos trabalhassem.

– Shikida, não entendi aquela derivada.
– Pensa um pouco.
– Shikida, não entendi a última frase.
– Ouve um pouco.
– Shikida, vou ao banheiro.
– Vai, mas não se perca por lá. Quer levar uns exercícios?

Alguns se arriscavam mais:

– Shikida, y^2 = x^alfa?
– É, sin(y) + exp(y)…
– Ah….TMS = pz/px!
– Yeah, baby! You got it!

Tudo corria mais ou menos bem quando, de repente, uma aluna (vamos chamá-la hipoteticamente de Helena) me chamou:

– Fala, Helena.
– Posso fazer uma pergunta que não tem nada a ver com os problemas?

[parênteses curtinho: o irmão de Helena também é meu aluno. Está um ano na frente. Ele usa sempre esta introdução em suas perguntas “abobrísticas”. A genética não mente…]

– Claro, Helena. Desde que eu possa responder sem ter nada a ver com os problemas…
– Por que toda questão da ANPEC começa com o item (0) [zero]?
– ??

[parênteses curtinho…again: o exame da ANPEC tem, em cada prova, 15 questões, cada qual com 5 itens de Verdadeiro ou Falso. Os itens são sempre numerados como (0), (1), (2), (3) e (4).]

– É! Não entendo isto! Por que não (1)?
– Ué, Helena, zero vem antes de um.
– Eu sei, mas zero?
– Pensa assim: poderia ser (31), (32)…mas é (0), (1). Melhor que (-3), (-2), (-1), (0),…
– Mas porque zero? Como? Isto não faz sentido! O universo enlouqueceu?
– Como assim?
– O zero…o que é o zero? Como provar que o zero existe?
– Eis aí uma questão complicada!
– Zero…zero…zero…
– Helena?
– Zero…zero…zero…

Assustei-me.

– Helena, você está bem? Mariana, passa a mão em frente aos olhos dela.
– Ok, Shikida. Xi…ela não reage.
– Zero…zero…zero…
– Helena, você está sob sugestão hipnótica?
– Zero…zero…zero…

Pensei no que acontecia e resolvi arriscar:

– Helena. Você vai me ouvir e obedecer. Desde agora, você estudará mais Microeconomia. Mais ainda, vai gostar.
– Zero…zero…zero…
– …e vai sentir uma vontade incrível de fazer todos os exercícios da apostila, na sexta à noite.
– Zero..zero….zeroooo
– Mariana, acho que ela vai acordar. Checa aí.
– Ahn?? Onde estou?
– Helena, tudo bem?
– O que foi que eu fiz, Shikida?
– Não sei. Está tudo bem?
– Sim. Mas tô com uma vontade incrível de fazer os exercícios amanhã à noite. Acho que vou chamar a turma para estudar lá em casa.

Interrompi a aula e dispensei a turma. Todos os que passavam por Helena olhavam-na com espanto e medo. Eu mesmo estava estupefato!

Estaria a aluna em estado de choque? Seria tudo culpa do prof. Salvato e suas matrizes insanamente estocásticas? Seria culpa do prof. Coutinho e sua interminável lista de exercícios de matemática financeira? Não sei. Realmente não sei. Pensei muito sobre isto no resto do dia.

Talvez, leitor, exista mesmo algo de hipnótico na prova da ANPEC. Talvez o item zero, que lá existe, tenha um significado importante, oculto e, como diria Rod Serling….além da imaginação.

Gostou da historinha? Então leia outras divertidas histórias na segunda edição impressa de Tire a mão da minha linguiça.

p.s. Esta história foi publicada em maio de 2009, aqui.

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