“Não se deixe levar pelo obscurantismo”, dizia ele.

As luzes se apagaram Não sei bem como isso começou, mas quando eu era adolescente, andar pelas ruas era um exercício de criatividade. Eu parava, olhava para um prédio e imaginava um roteiro de filme para aquele prédio. Olhava para a rua, idem.

Creio que meu maior sonho – frustrado pela falta de dinheiro – era comprar uma câmera de vídeo e fazer pequenos filmes. Na minha época você não achava isto por aí, assim fácil. Já prometi a mim mesmo que vou comprar uma para mim um dia.

Meu irmão, por sua vez, tinha um colega mais rico que tinha uma destas câmeras e passou parte de sua adolescência fazendo filmes na garagem do prédio dele. Filmes bem divertidos, diga-se de passagem.

Mas a idade avançou e, com o vestibular, veio a responsabilidade. Das escolhas que fiz, claro, não me arrependo. Mas sempre guardei o desejo de ser um diretor de cinema junto com o de ser astronauta ou alguma outra fantasia infantil que todos nós carregamos ao longo da vida.

Anos se passaram e, num belo dia, resolvi procurar por vídeos que me ajudassem em sala de aula. Deparei-me com dois ótimos: um sobre vantagens comparativas e outro sobre salário mínimo. Gostei tanto do que assisti (além de rir um bocado) que resolvi escrever para o criador dos vídeos: Olavo Rocha.

Tudo era interessante nestes vídeos. O Olavo tinha formação similar à minha – economista – e o humor era tão parecido que eu fiquei realmente feliz: havia encontrado alguém que pensava como eu penso mas tinha uma vantagem vital que era a de se expressar de maneira muito mais clara, artística e talentosa.

Em 17 de Julho de 2008 estabeleci contato com o Olavo. De forma um tanto quanto intrometida, eu lhe sugeria um texto do Instituto Millenium como inspiração, creio. No dia seguinte, ele me enviava uma mensagem naquele seu tom bem-humorado (você nunca sabia quando ele falava sério ou não) pedindo sugestão para um roteiro que pretendia filmar. Algo sobre privatização, sistema de preços e rent-seeking.

A partir daquele dia eu me senti triste por não ter nunca visto um único aluno de Economia fazer algo similar. Aliás, nos dias seguintes, eu tentei captar alunos para o Olavo fazer algum vídeo. Mesmo não residindo no Rio de Janeiro, tentei algum contato por lá e, claro, não obtive resposta. Aos poucos, contudo, nosso diálogo evoluía para um novo roteiro que Olavo viria a filmar sobre o Teorema de Alchian-Allen. Em 08 de Setembro daquele ano, Olavo já falava da equação de Slutsky e tentávamos ver o que, exatamente, poderia ser feito.

Algum tempo se passou e Olavo guardou a idéia (ou a desenvolveu em silêncio) até 12 de janeiro de 2009. Foi então como ganhar um presente de Ano Novo quando Olavo me enviou uma tentativa de roteiro para comentários. Em 23 de Janeiro, o convite oficial chegou anunciando o filme.

Em 07 de Maio, novamente Olavo me consultava sobre um roteiro que havia escrito. Era uma divertida história sobre o dilema dos prisioneiros. Fez um enorme sucesso entre meus alunos (assim como o Teorema de Alchian-Allen) e, nele, Olavo já usava mais de um consultor para comentar seus filmes.

Dá para imaginar minha felicidade em, parcialmente, realizar um sonho de juventude? Puxa, eu me sentia quase que um pai do filme, embora todo o esforço e mérito fossem do Olavo. Mas a idéia era minha e o desenvolvimento conjunto me deu aquela sensação de fazer parte de um empreendimento cinematográfico.

Olavo fez vários filmes que ficarão na história. Foi provavelmente o único a usar a câmera para divulgar idéias liberais no Brasil. Sua irreverência e seu conhecimento de Economia davam aos vídeos um estilo verdadeiramente único que somente a visão de um estudante da área poderia criar.

Sim, ele ajudou a educar vários estudantes – universitários ou não – nos princípios da boa economia e também teve a coragem de expressar seu ponto de vista contrário a ideologias que considerava perniciosas. Fez isto sem ganhar um tostão de sindicatos ou ministérios, sem usar a violência para impor suas opiniões. Era apenas ele, uma equipe variável de atores, cenários – e maquiagens – propositalmente simples (alguns diriam: “toscos”) e, como se diz por aí, “uma câmera na mão”.

Em 22 de Agosto, Olavo estava a todo vapor, com três projetos sendo que, pela primeira vez, fazia um sob encomenda. Após um tempo, trocamos mensagens em começo de setembro sobre seu projeto sobre o custo dos impostos (algo chamado de “personal fiscal”, conforme se vê no catálogo da produtora informal). O que se segue abaixo foi a última troca de mensagens que tivemos.

To: Olavo Rocha

http://www.deolhonoimposto.com.br/

Olavo Rocha Fri, Sep 4, 2009 at 12:18 PM
To: “Claudio Shikida (敷田治誠 クラウジオ)”
boa!!

Olavo Rocha Fri, Sep 4, 2009 at 12:23 PM
To: “Claudio Shikida (敷田治誠 クラウジオ)”
eu consegui
achei o percentual da cerveja
só não vi do perfume

A partir daí eu só aguardava o próximo vídeo dele – um sobre a famosa falácia da vidraça quebrada de Frederick Bastiat – cujo trailer já havia me deixado muito curioso. Foi então que, ontem, 01 de Novembro, eu recebi a notícia de que Olavo teria decidido permanecer vivo apenas em nossas memórias e corações.

Minha convivência com ele, como se vê, não foi tão longa assim. Por algumas vezes eu pensei em viajar ao Rio de Janeiro para, dentre outras, conhecer alguns amigos pessoalmente. Talvez a tristeza que eu sinta agora seja uma prova cabal de que os catastrofistas do início da internet estavam errados. A rede de computadores não isola as pessoas e/ou destrói as relações humanas: as pessoas, sim, elas mesmas,  é que criam e desfazem amizades. Nunca vi o Olavo, mas ele me ajudou a realizar um sonho: o de ser parte da criaçào de um empreendimento cinematográfico – amador e humilde, mas ainda assim um empreendimento.

O que acontecerá com a Fonft eu não sei, mas Olavo conseguiu provar o que penso ser o mais importante argumento a guiá-lo por todos estes filmes: o de que um indivíduo pode fazer toda a diferença. O título deste texto é, talvez, a frase que mais me lembro de um de seus educativos vídeos sobre economia.

Para terminar, faltou apenas enviar um último email para ele com uma única frase:

Até mais, Olavo.

Anúncios

6 comentários sobre ““Não se deixe levar pelo obscurantismo”, dizia ele.

  1. Pingback: Staying Alive | OrdemLivre.org/blog

  2. Pingback: Conceitos econômicos explicados com diversão e criativadade. « Lino Gill

  3. Caro autor deste post.

    Foi com um pouco de tristeza que li esse post. Quem vos escreve é um dos melhores e mais próximos amigos do Olavo ao longo dos últimos 10 anos da sua vida. Belo texto. Saiba que ele ficava muito feliz ao saber que havia alguém, mesmo que fossem poucas pessoas, que se interessavam pelos filmes dele. Foi difícil superar a perda. Até hoje sinto muito a falta dele. Enfim… me senti tocado pelo seu texto e saiba que ele gostaria muito de encontrá-lo. E devemos sempre nos guiar pela frase que ele “eternizou”: Não se deixe levar pelo obscurantismo.”

    Abraços
    Fernando.

    Curtir

    • E incrivel ver que todos os que cruzaram o Olavo no seu caminho ainda sofrem desta perda, varios meses depois ! Eu teve a sorte de lhe encontrar 4 anos atras, na França, quande ele foi de intercambio na minha universidade em Lyon. Sempre perguntava : “Tu es heureux ?”, “Você esta feliz?”. A vida dos outros era muito importante para ele, e sua “luta” para uma economia que se acercasse mais do seu sonho fazia parte da sua vontade de melhorar a vida dos outros. Onde ele estiver, Olavo seria muito emocionado de ler esta homenagem. Então, em nome dele, muito obrigado !
      Fernando, encontrei você uma vez so no ponto de ônibus da PUC, mas com esta prova, compartilhamos a mesma pena !

      Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s