Elementar, meu caro Dr. Freud

Os bebês são, por natureza, engraçados. A Tetê mesmo, nestes últimos tempos, aprendeu a se comunicar comigo. Antes, eu lhe acenava com um “tchau” quando chegava e quando ia embora porque a sobrinha aprendeu na creche a bater palmas e dar tchau. Mas isso foi antes. Ontem, encontrei-a em pleno final de banquete. Ela me viu, ofereceu-me, silenciosamente, um pedaço de melão que recusei adequadamente. Foi então que ela abriu aquele meio sorriso e me deu um “tchau” com a outra mão. Digo, deu um “oi”.

Falando em bebês, lembrei-me que, ultimamente, minha esposa me trocou por um tal de Sugismundo, não Sigmund Freud. Um destes austríacos que povoam o imaginário popular. Anda por aí tentando me convencer a comprar um machado para esquartejar alguns totens e não quer saber de tabus. Acho que, inconscientemente, eu sabia disto lá em Novembro do ano passado quando lhe comprei o Freud além da alma, do John Huston. Vi este filme na minha época de graduação por causa de um grande amigo meu – hoje bem distante – o Romero. Este cara, na época, era sensacional. Ele era capaz de falar horas sobre detalhes da música clássica, ao mesmo tempo em que dissertava sobre Freud, Jung e química. Tinha que virar professor…e virou.

Mas a esposa, como eu dizia, entrou nesta onda freudiana. Outro dia mesmo, estávamos jantando e eu queria, como sempre, ver um pouco de TV enquanto converso e como.

– Não, desliga a TV.

– Mas a gente sempre vê TV.

– Não.

– Ei, isto é repressão.

– Não é não, segundo Freud, a repressão…

– Pára com essa história!

– Olha que eu te hipnotizo, heim? Aí você vai comer as verduras que nunca come.

– Ah, Muyumi (vamos chamá-la de Muyumi para preservar a identidade…tem uma explicação freudiana para isto, mas eu falo dela outro dia), pára com isso. Você está fantasiando que não vou ver TV.

– Lá vem você de novo! Ah, leigos, a fantasia, em Freud, significa…

Passaram-se alguns minutos até que eu me recobrasse da longa preleção sobre Freud. Por que mesmo aquele charuto? Sei lá, de qualquer forma, o diálogo continuou:

– Muyumi, eu só quero ver um pouco de TV.

– Por que? Na sua infância você via muito? Sua mãe te mimou demais. Aposto que você assistia TV 24 horas por dia!

– Oba, vamos assistir 24 horas, Jack Bauer??!!

– Não! Não muda de assunto. Sua infância deve estar toda cheia de problemas. Sua mãe…

– Se teve! Eu não podia ver TV…

– Ahá! Como eu disse, havia problema! Você tem problema com ou sem TV. Acho que seu subconsciente…

– Sub-o-que?  Ah, olha tem Law & Order agora…

– Não interrompe, Cláudio!

– Muyumi, acho que você está muito mandona. Será que sua infância..

– Não vem não! Para cima de mim? Nem se atreva! Você não está estudando Freud, eu estou!

– Vamos trocar Freuds da Tetê?

– O que??

– Calma, Muyumi…tô brincando…

– Brincando…você está é com algum ato falho…fralda, fralda, fase anal…

– Sexo anal?

– Cala a boca, Cláudio! Você não vai ver TV mesmo! Humpf! Só falta escrever isto naquele seu blog! Eu passo sabão na sua boca, heim?

Dizendo isto, Muyumi ainda tentou me jogar um guardanapo na cabeça, mas consegui escapar. Imaginei como o bom dr. Freud enfrentava sua esposa na hora do jantar. Bem, naquela época não tinha televisão, não é mesmo? Talvez a novela das oito resolva muitos problemas freudianos criados pelos comerciais. Ou seria o contrário?

Bem, o fato é que Muyumi continua lendo Freud e eu me sinto cada vez mais um rico objeto de estudo. Modéstia às favas, claro!

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4 comentários sobre “Elementar, meu caro Dr. Freud

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