Kafka em BH

Outro dia um amigo meu teve que ir à prefeitura (com “p” minúsculo mesmo). Havia se enganado com um pagamento e pedia o ressarcimento. Ao chegar lá, foi atendido por uma funcionária (estagiária?) que lhe atendeu e avisou:

– O senhor volte em uma semana para ver como estará seu processo.

Claro que, neste momento, a gente pensa em como a “privatização” fez mal ao Brasil. O modelo regulatório criado antes da era Lula, inclusive serviu como um bom suporte ao Brasil mais competitivo. Entretanto, como sabemos, prefeituras não competem, são monopólios locais e, claro, odeiam ser regulados. Não se pode culpá-los por isso: quem não odeia ser regulado? Como vivem de nossos impostos, contudo, deveriam ser menos preocupados com isso e mais empenhados deveriam ser em seu trabalho como servidores públicos.

Ok, meu colega voltou para casa e, conhecendo as maravilhas do “Estado Desenvolvimentista”, deu duas semanas de prazo. Sabe como é, a vida sob a égide de um governo que se crê pai e não muleta é sempre arriscada.

Quando voltou, foi atendido por outra pessoa.

– E o meu processo?
– Deixe-me ver.
– Sim?
– Ah, pode ficar tranquilo! Já foi anexado!
– Como é?
– Já foi anexado, senhor.
– Mas, como assim? Eu não pedi para anexarem…foi anexado onde?
– É que o pedido do senhor (veja formulario abaixo) especificava que sua demanda era para anexar.

Fazendo uma incrível força para não rir (ou chorar) ao ver o formulário que mal havia lido antes, meu colega prosseguiu com a conversa.

– Ah, tipo grampear?
– Mais ou menos isso.
– Hum, mas solução, ainda nada?
– O senhor tem pressa?
– Digamos que sim.
– Então o senhor terá que pegar uma senha e ir lá naqueles atendentes.
– Nossa, muito obrigado.

Como sabemos, no “Estado Desenvolvimentista” defendido por políticos genuinamente interessados em criar brasileiros impacientes e neuróticos, as coisas andam, digamos, meio devagar. Embora haja até quem defenda lei para fila em bancos, nunca tivemos leis para filas em repartições públicas. Isto quando não encaram qualquer reclamação como “desacato ao funcionário público”, como se sua autoridade fosse divina e absoluta.

Mas eis que meu amigo ficou lá, plantadinho, esperando sua senha. Após algum (não desprezível) tempo, foi chamado.

– O que o senhor deseja?
– Precisava agilizar este processo aqui.
– Qual o número? Por favor, deixe-me ver.
– Aqui está.
– Ah sim. Por favor, aguarde. Preciso ficar com este documento. Mas vou resolver para o senhor.
– Obrigado.
– Pronto, aqui está.

Quando meu colega olhou o documento, deparou-se com um formulário idêntico ao que havia entregue. Só que, ao invés de pedir a anexação, havia lá a opção: “agilizar processo” que ele não havia reparado anteriormente.

– Agora o senhor deve esperar uma semana e aí o senhor volta e acompanhe seu processo.
– É isso??
– Sim.
– Preciso dar nota ao seu atendimento?
– Não, aqui na prefeitura não temos estas práticas capitalistas. Graças a Deus. É um abuso, não?
– É….pois é….

Fim

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2 comentários sobre “Kafka em BH

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