Tiradentes: um final alternativo

Tiradentes, no cadafalso, na pitimba, enfim, com a corda no pescoço (mesmo). A multidão ansiosa para vê-lo pendurado no ar, como sempre, louca por sangue. Soldados portugueses loucos para voltarem para casa e darem um tempo com a soneca regada a vinho do porto. O sol no horizonte, alguns comentam que não adianta reclamar dos impostos, outros olhavam para Tiradentes com aquela cara de “bem-feito, safado”.

O padre, sempre ele, aproximou-se e perguntou, ansioso por ouvir um “eu me arrependo dos meus pecados”:

– Meu filho, quais são suas últimas palavras?

Tiradentes encarou bem o padre. Por milésimos de segundos pensou em como foi cair na conversa mole daquele chato que só falava de poesia e de uma tal de Mariana, Maria, Mara, Márcia…não, Marília. É, talvez fosse Marília. Não podia agarrar logo a rapariga e lhe arrancar um beijo? Ou algo mais? Parecia uma donzela, um emo, tudo menos um bom homem.

A vida não tinha sido fácil até agora, mas havia conseguido fazer algum dinheiro com um discreto caixa dois no consultório mas, nãoooo, ele tinha que ouvir o papo daquele poetinha besta sobre impostos e sobre como poderiam se livrar do imposto de renda. Uma imensa raiva tomou conta do condenado. Não, não seria possível se dizer arrependido.

Olhando nos olhos do padre, o herói da Inconfidência refletiu sobre a profundidade do sentido da vida: não era este padre o tal safado que seduzia meninotes atrás da praça? Ele é que lhe conclamava ao arrependimento? Anos e anos de trabalho árduo para terminar ali, na forca, em frente a um pedófilo safado que pregava o bem e praticava o mal?

Não, não, seria demais. Demais mesmo.

E a multidão? Um bando de covardes, não? Quantos ali falaram no boteco do Manoel que também pegariam em armas se viesse mais um anúncio de aperto na cobrança de impostos? Pensou quase em voz alta:

“- Um dia vão nos cobrar e nos fazer pagar de forma instantânea, em nossas casas, como se fosse possível uma comunicação instantânea entre pagadores de impostos e o fisco…e ainda vão nos chamar de ´contribuintes´, filhos da….”.

Antes de completar o pensamento,  pediu silenciosamente perdão a Deus pelo palavrão.

Seria mesmo possível que ele pagaria o mico em frente a toda a galera do boteco, os ex-vizinhos, os pacientes do consultório…até o Joaquim, aquele sacana que lhe havia prometido pagar a obturação há meses e agora estava lá, ao lado da forca, como uma testemunha viva de que a fiscalização portuguesa sempre se preocupou apenas com o ouro do rei…

Que vida idiota, tanto trabalho para terminar assim! Nem a barba pôde fazer. Ficou lá, com aquela cara de Jesus Cristo, que sempre lhe valera bronca das namoradas. Falava a Manuela: “- Mas Joaquim, esta barba lhe cai muito mal. E incomoda na hora do beijo, pois!”

De que adiantava lembrar da Manuela agora? Tudo estava por acabar. Não iria pegar mais rapariga nenhuma nos bailes de sábado.

Pensou nisto tudo em um milésimo de segundo. Não dizem que a vida toda nos passa pelos olhos nestas horas? Pois é. Mas foi no milésimo seguinte que surgiu-lhe algum conforto. Foi quando Deus o ajudou com aquela inspiração que consola os condenados inocentes. Uma luz em meio ao negro caminho da morte.

Acenou positivamente com a cabeça para o padre que, por sua vez, comemorou com um sorriso discreto a satisfação de, ao menos, conseguir arrancar mais um arrependimento de um criminoso.

Tiradentes olhou bem para a multidão, encheu os pulmões e gritou:

– Eu comi as mulheres de todos vocês, seus bobos!

Foi quando sentiu seus pés perderem o chão. E tudo se apagou.

(publicado originalmente em 14/05/2010)

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