A Carne

A Carne

Durante o segundo ano da minha faculdade, eu passei por uma disciplina muito difícil de teoria econômica. Rapaz, eu sofri muito durante o semestre. Perdi finais de semana, festas, mas, no final de tudo, passei. Foi uma alegria só. Meus pais até me fizeram um churrasco e eu e meus amigos fizemos muita algazarra. Ah, naquele tempo fazia-se algazarra. Hoje faz-se, sei lá, bagunça, zona, etc.

Mas o negócio é que o professor da matéria me encontrou um dia, no corredor da faculdade, e me chamou.

– Vem cá, Cláudio.
– Sim, professor.
– Veja, você não quer ser o monitor da disciplina?
– Qual?
– …. (aquela cujo nome é impronunciável)
– Ah, sim, gostaria muito.

Foi aí que comecei a trabalhar para meu professor – vamos chamá-lo de Professor W – ajudando-o com as listas de exercícios e outras atividades de monitoria. Nossos encontros eram sempre animados. O professor W tinha uma garrafa de café em cima da mesa. Após algum tempo trabalhando com ele, passei a ter o privilégio de lhe fazer o café. Como recompensa, poderia tomar quantas xícaras de café eu quisesse.

Com o passar do tempo, eu e o professor W passamos a nos concentrar em alguns assuntos de Economia que eram de interesse comum. Assim, aos encontros formais somaram-se outros, informais, nos quais discutíamos alguns papers ou livros (ou capítulos de livros). Nestes dias, eu lhe comprava algumas bolachas da padaria que ficava perto da faculdade. Às vezes outros professores se juntavam às nossas discussões. Era muito, mas muito divertido.

Acabou o semestre e achei que tudo iria terminar. Mas, para minha surpresa, o professor W renovou minha assistência a ele por mais um semestre.

– Gostou, Cláudio? Não era o que você queria?
– Sim, professor. Muito obrigado!
– Assim você pode me fazer mais café! Ha, ha, ha.

Não apenas ele, mas eu também ri bastante ao longo do segundo semestre. A vida de monitoria é dura porque você tem que ensinar alguns alunos – alguns até colegas seus – sobre a maneira correta de se estudar ou assistir a uma aula. Isto sem falar nas intermináveis listas de exercícios ou nos encontros informais com o professor W e seus colegas ocasionais.

Eu já me acostumara com o professor W no final deste segundo semestre. Até lugar no armário dele eu tinha. Nosso relacionamento de “mestre-discípulo” tinha algo de confiança que nem sempre se vê por aí.

Foi então que, numa quarta-feira, lá pelo final do dia, tudo aconteceu. Eu acabara de chegar com várias listas corrigidas e tabuladas conforme ele havia me pedido. Ele sorriu, agradeceu-me e virou-se para mim de maneira diferente.

– Quer ver uma coisa?
– Como assim, professor W. Temos um novo livro para estudar?
– Não, não, não Cláudio. Veja, estou falando de algo diferente.

Até então nossas conversas, por mais informais que fossem, não ultrapassavam o âmbito do mundo acadêmico. O professor W havia me pego de surpresa. Eu não sabia o que responder.

– Vamos, Cláudio, já temos um bom tempo juntos. Acho que já posso lhe mostrar.
– Bem, não sei, professor….de que se trata?
– De lazer.
– Lazer?
– É, lazer, descanso, você sabe o que é.
– Sim, eu sei, mas é que…
– …nunca falamos sobre isso, eu sei.

O professor e eu tínhamos desenvolvido este hábito de adivinhar o que o outro pensava. Isso era muito bacana, mas também era assustador. De qualquer forma, a conversa continuou.

– Sabe, Cláudio. Todos estes artigos, livros e pesquisas não são a única coisa em minha vida.
– Não? Digo, claro que não…
– Ora, ora, seu humor não mudou nada.
– Obrigado, eu acho…
– Acalme-se, rapaz. Veja, vou lhe ensinar algo diferente hoje.
– Sim, bem…

Hesitei. Sei lá o que o velho professor W iria me dizer. Mas resolvi, pela minha imensa curiosidade, ir até o fim.

– E então?
– Fale professor.
– Sabe, Cláudio. Estes anos de sala de aula e congressos, tudo isso é muito importante. Mas você não pode viver somente assim. Tem que descansar algumas vezes…
– Entendo, professor.
– Nós nunca falamos disso, né?
– Não, acho que não.
– Pois bem. Cada um tem seu jeito de descansar. Desde que minha mulher faleceu e meus filhos se casaram, eu tive que descobrir novos jeitos de relaxar.
– Aqui na faculdade, professor W?
– Sim, aqui mesmo.

Eu tinha até medo do que ele poderia falar, mas, em prol da minha maldita (ou bendita) curiosidade, mantive-me firme.

– E como é que o senhor descansa?
– Relaxa.
– Sim, relaxa.
– Com a Carne.
– Com o que?
– A CARNE!
– A carne??
– Sim, Cláudio, A Carne.

Fiquei estupefato. Tinha medo de sair correndo da sala e também de nela permanecer. Assim, continuei a conversa.

– A carne? Professor W, o senhor fala do restaurante “Espetinho”, ali ao lado?
– Não. Falo da CARNE.
– Mas o que seria a CARNE?
– Feche a porta por favor, Cláudio. Mas veja se não há ninguém pelo corredor.
– Sim senhor.

Foi então que o professor começou a abrir a gaveta superior do lado direito de sua imensa mesa. Eu nunca, mas nunca tinha visto ele abrir aquela gaveta. O que poderia ser? Guardaria ele um sanduíche ali? O professor teria hábitos de feitiçaria? Tudo isso me deixava confuso, mas o professor lentamente abriu a gaveta. Pegou um envelope pardo e colocou-o sobre a mesa.

– Veja, Claudio, A CARNE!
– Como, professor?

O professor W abriu o envelope e, de dentro dele, saiu um livro velho, com a capa quase dissolvida pelo tempo. Seu nome: A Carne. Tratava-se do romance de Júlio Ribeiro, de 1888.

– Eis meu segredo, Cláudio.
– Esta é A CARNE, então…

Respirei aliviado.

– Sim, este livro é ótimo. Sabia que foi um escândalo quando foi publicado?
– Não, professor W.

A conversa continuou por mais um tempo, com o professor W discorrendo sobre o romance, a sociedade da época, de sua infância, casamento, etc. Foi então que descobri o significado daquele livro para o solitário professor. A capa, apelativa, e o texto antigo o transportava ao mundo da ficção no qual ele, de alguma forma, encontrava forças para continuar sua árdua tarefa do dia-a-dia.

Eu sabia que minha presença também o ajudava, de alguma forma. Mas jamais me esquecerei do livro dentro do envelope pardo em sua gaveta superior direita: A Carne.

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