Carta ao professor

Querido professor,

Eu sei que você acha que não é o culpado pela minha nota horrorosa, mas, na verdade, o senhor o é. Eu também sei que o senhor está pensando que esta carta tem muitos poucos erros de português, mas é que minha mãe, que sempre me achou um gênio incompreendido, escreveu-a para mim.

Agora que eu fui reprovado por seus métodos cruéis de avaliação, vou finalmente falar. Eu achei que houve um monte de problemas em seu curso, ao longo do semestre. Só não falei antes porque achei que poderia me dar bem sem estudar muito, conversando um bocado, saindo para a balada todas as semanas – quiçá todos os dias – e também acredito no poder do dinheiro: pagou, passou.

Esta é a ética que o senhor, um antiquado cabeça-dura, deveria aprender. Desde o mais pobre brasileiro até o mais rico cidadão deste país, todos já sabem que quem sabe faz, quem não sabe ensina. Por isso estou ensinando-o a se comportar diante de um gênio como eu.

Eu sei que o senhor gosta do que faz, por isso quero atingi-lo bem forte com esta carta. Se eu tiver sorte, o senhor será suficientemente bobo para se entristecer. Não se preocupe, quando eu fizer meu trabalho de conclusão de curso, caso você me encha o saco, papai vai me ajudar. Ele já ofereceu dinheiro para alguns professores em troca de algumas provas. Nem vou dizer se ele conseguiu. Isto é algo para lhe perseguir, professor. Sonhe com isso. O diretor da escola jamais levará uma denúncia destas adiante.

O senhor pensa que é esperto, eu sei. Acha que pode nos mandar copiar enunciados de exercícios e, quanta arrogância, acha que pode nos fazer tentar resolvê-los. Acho que o senhor não conhece a internet, o mundo moderno, a sociedade globalizada. Vou lhe ensinar então: nós, alunos, temos todos os direitos e todas as respostas para todos os problemas da humanidade, inevitavelmente serão encontrados na internet. É só clicar, professor, e tudo o que eu preciso saber estará lá.

É verdade, eu sei que está pensando no porquê de eu estar na faculdade. É porque o bobo do meu pai acha, como o meu avô também acha, que é preciso estudar. Ele acredita que a vida adulta com caráter forjado nos bancos universitários é alguma coisa de valor. Ele, digo, eles, como o senhor, não parecem ler os jornais. Aqui, neste país, qualquer analfabeto pode se vangloriar de não saber ler ou escrever. Até um ex-presidente já disse isso. Mas vocês ficam tentando me fazer ler, pensar, escrever. Para que você acha que tive aquelas aulas de sociologia e filosofia no colégio? Eu já sei pensar, porra!

Eu poderia ter reclamado durante o semestre com o senhor, né? Mas aí o senhor tentaria me fazer estudar desde cedo. Não nasci ontem (como o senhor, aliás), meu caro. Você acha que merece respeito? Espere para ver: farei meu discurso para o diretor do jeitinho que mamãe me ensinou: direi que quero um ensino de qualidade, que não duvido da seriedade dos professores, mas que o senhor, seu bosta, o senhor é que não sabe ensinar. Não me pergunte como eu sei o que é ensinar ou o que eu devo aprender. Isso é pergunta de gente retrógrada! Na minha “network”, o que vale é com quem a gente joga tênis, meu caro. Aprenda isso, você que se acha professor!

Não pense que vou parar por aqui. Vou falar com meus amigos e colegas. Contarei uma versão da história que não será a melhor para você, seu ditador! Farei o maior terrorismo. Será fácil, porque todos gostam de baladas, festas, até drogas alguns gostam, sabia? Tome esta, seu velho besta! Nós já assistimos suas aulas drogados e bêbados. E quem você pensa que é para nos mandar sair? Você acha que professor é alguma coisa?

Você não percebe que se eu tenho dificuldades, a culpa é sua? Que se todos nós vamos para a balada e vamos mal na prova, a culpa é só sua? Você acha que eu tenho que me sobrepor aos obstáculos? Não seja idiota! Eu tenho é que me desviar dos obstáculos e dizer que fui vitorioso! Minha capacidade é maior do que você pensa! Não tenho que provar isso para você fazendo listas de exercícios. É por isso que eu as copio e as entrego. Entendeu, imbecil? Eu nunca fiz nenhuma lista! Só decorei umas soluções para me fazer de esperto para você.

Você insiste que um livro-texto tem um índice. Eu lhe digo que o livro-texto é coisa do passado. Hoje existe o tablet. Com o tablet eu faço muito mais que você! Eu leio mensagens, publico no Twitter, no Facebook e ainda estudo, tudo ao mesmo tempo. Mas você, seu antigo imbecil, você não entende isso. Você acha que sabe ensinar. Pois eu lhe digo, pela milésima vez, que não!

Não tente contra-argumentar ou me dizer que eu tenho que estudar porque sou estudante. Eu sou aluno. Se estudo em escola privada, eu pago. E se eu pago, eu passo. Não pense que será diferente na universidade pública, porque eu pago impostos. Vou cobrar meu diploma. Você, professor, não aprendeu que temos direitos? Tem estatuto para tudo hoje em dia! Não importa se abusamos do estatuto, ele está aí para ser abusado mesmo. Azar dos bem-intencionados. É assim que a coisa funciona, entendeu?

Da próxima vez, professor, pense bem antes de entrar em sala de aula. Não estou lá para aprender, mas para me divertir. Aprender é algo lúdico. Se não é, tem que ser. Afinal, eu sou a geração do futuro e não posso ter notas ruins porque um professorzinho qualquer acha que eu não sei. Eu vejo tv a cabo e sei me virar quando estou na Disney, professor. Como posso ser reprovado por você?

Feliz Natal, professor. Espero que morra.

Do seu melhor aluno, quer você acredite nisto ou não.

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Um comentário sobre “Carta ao professor

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