Não entendia

Dizia que não entendia. Sempre foi assim, desde criança. Não tinha mais que uns vinte anos de idade, mas a vida fácil que lhe fora proporcionada tinha um colorido diabólico. De um lado os pais, que jamais lhe negaram nada. Mesmo sabendo que o filho não tinha capacidade para altos vôos e para compensar sua ausência, enchiam-lhe de presentes.

Os pais viam-se como culpados e vítimas ao mesmo tempo. Culpados por não ajudar mais na criação do filho que tanto mimavam. Vítimas porque o baixo desempenho do filho lhes trazia a necessidade de gastar um tempo que outros pais não gastavam com o menino. Às vezes o ódio quase vinha à tona quando se lembravam dos bons tempos em que podiam ir às festas e aos bons restaurantes. Agora, embora a vida ainda lhes fosse generosa, tinham que trabalhar um pouco mais para tentar educar o filho que tinha dificuldades.

Você poderia imaginar que o menino era uma vítima inocente. Bem, no início ele foi. Mas, como todo ser vivo, desejoso de sobreviver, ele aprendeu a se adaptar. Passou a usar a própria deficiência cognitiva como arma. Por isso sempre dizia que não entendia. Era mais fácil para conseguir o que queria. Lei do menor esforço, claro. Tinha um dever de casa difícil? Não entendia. Insistia que jamais conseguiria alçar vôos mais altos porque, afinal, a culpa não era dele.

Professor por professor, colégio por colégio, sua infância foi tumultuada. Os pais, claro, não queriam aceitar que o filho, que tinha uma dificuldade clinicamente diagnosticada, fosse o culpado. A culpa, claro, era dos professores. Por várias vezes empunharam seus dedos – com belos anéis de pedras preciosas – para os diretores das escolas: “- Seu professor é grosso! Ele não entende! Nosso filho é esforçado, ele apenas não entende”!

Veio a adolescência e, com ele, o vestibular. Os abonados pais contrataram um colega do filho, menino de mesma idade, para que o acompanhasse. Compraram-lhe a amizade e também o auxílio. A partir daí, passaram a andar juntos. Os pais, discretamente, acompanhavam o filho mas, pensaram, com tanto dinheiro gasto, passaram, pouco a pouco, a buscar de volta sua divertida vida perdida. Afinal, ainda tinham seus negócios e uma renda invejável. Como vários pais em situação similar, terceirizaram a educação do filho.

Talvez nunca tenham entendido que a vida é um delicado equilíbrio entre o auto-interesse e o amor familiar. Talvez ávidos por ter de volta a vida de festas, tenham se obrigado a esquecer o significado da responsabilidade de serem pais. Não importa. O filho, que nunca entendia, agora não mais queria entender e usava isto como arma contra os pais e os mestres.

Seu cotidiano na faculdade era, na melhor das hipóteses, patético. Junto com seu amigo, que não o desagradava nunca (o “auxílio” financeiro que recebia era bom demais para ser jogado fora…), não prestava muita atenção às aulas. Era todo dominado pelo toque de mensagens do celular. De vez em quando copiava alguma matéria. Derivava algum prazer em corrigir o professor em pequenos erros: “- Professor, o senhor esqueceu de limpar a lousa ali” ou “-Professor, ali é x/y? Não entendi sua letra, por isso tenho dificuldades em estudar”.

A biblioteca? Sim, ele a conhecia. Mas apenas para retirar emprestado um ou outro livro na última semana antes das provas. Pesquisar temas para trabalho? Jamais lhe ocorreu porque, afinal, não entendia. Não entendia e não queria entender. Seus pedidos de revisão de prova eram os mais pitorescos: “- O professor não entendeu o que eu quis dizer porque não tem didática”, “- O professor não entendeu o que eu expliquei porque é estrangeiro e estrangeiros não entendem nossa cultura”, “- O professor não respondeu minha pergunta e mandou eu fazer mais exercícios, mas eu pago para aprender, que absurdo!”.

Patéticos e motivos de piada, seus pedidos faziam rir os professores. Alguns, mais ingênuos, até tinham pena…até o primeiro encontro com o aluno – e seu fiel escudeiro – em alguma sala de aula. Bastava fazer qualquer pergunta que a reação dos dois era inequívoca. Sequer tocavam no lápis. Era sempre a mesma coisa: “não entendiam”. Testavam a paciência dos professores até o limite.

Certa vez, foram ambos até um professor reclamar de alguma nota. Entregaram algum trabalho de nível medíocre e, claro, não entendiam o porquê da nota tão baixa. O professor explicou, como explicava a qualquer outro aluno. Não entenderam. Ele explicou novamente e, claro, eles não entenderam. Não simplesmente disseram não entender. Eles o fizeram de forma grosseira, como já estavam acostumados, tentando, mais uma vez, jogar a culpa de seu comportamento errado no professor.

Foi então que este lhes pediu para que se sentassem e pensassem sobre o que havia de errado no trabalho. Enquanto isto, ele explicava às outras duplas o que havia de errado em cada um. Foram-se uns bons 20 minutos até que a fila de alunos se foi, exceto pela dupla que nada entendia. O professor os chamou e perguntou se haviam entendido. Eles, que sequer tentaram refletir sobre o que haviam feito, novamente soltaram, em coro: “não entendo”. O professor, então, mandou que fossem para casa estudar porque, afinal, o restante da turma já havia entendido e apenas eles insistiam na sua rígida vontade em não entender o óbvio. Claro, ambos foram reclamar com o diretor da faculdade.

Como a fama ruim já se espalhava, ambos começaram a dissimular. Anotavam alguma coisa aqui e ali. Talvez até tivessem tentado sair da inércia em que se encontravam, com uns 20 anos de atraso. Claro, o início é difícil e doloroso. Nada que uma pessoa bem educada – pelos pais – não consiga, com alguma dor (sim, “dor”, porque esforço dói). Entretanto, onde estava o caráter forjado pelos pais que não queriam fazer mais do que terceirizar a educação do filho? Era como buscar um jardim em meio ao Saara. Por sorte, um óasis, e olhe lá. O fato é que a tensão aumentava nestas tentativas e, como sempre, prevalecia a desculpa de sempre: não entendo.

O colega e ele até tentaram uma estratégia: um assistia a aula e o outro se divertia. Alternavam até que algum deles alcançassem o limite legal das faltas da faculdade. Não gostava de um professor? Pronto. Isto já era motivo para usarem esta péssima estratégia, digna de um time de várzea na última divisão. Mas, infelizmente, não conseguiam pensar em algo mais inteligente porque, lembremo-nos do mantra: “não entendo”.

De “não entendo” em “não entendo” foram se transformando em “fatoriais” na faculdade. Em algumas turmas, seu comportamento era motivo de riso ou de murmúrios que misturavam pena e desprezo. Em outras, encontrava eco na preguiça de alguns outros alunos e a contaminação, como um vírus fatal, tinha consequências terríveis para todos.

Não sei se um dia se formaram. Sei que os pais do moleque continuaram buscando alívio em suas festas, em seus carros de luxo, tentando, desesperadamente, obter a redenção pela má educação dada. Os dois alunos, na última vez em que os vi, reclamavam com o diretor sobre algum professor que, segundo eles, não lhes explicava nada direito. Continuavam sem entender a lição mais básica da vida: independente de suas dificuldades, qualquer um pode melhorar, desde que realmente se esforce. Eu sei, é fácil entender. Mas é fácil para você, que quer entender, não é? Para quem não quer, não há esperança.

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