Run, Santa Claus, Run

Foram anos vestindo-me de Papai Noel apenas para uma criança, minha sobrinha. Os pais, por sua vez, resolveram que a educariam sem crença em qualquer fantasia infantil: Papai Noel, Coelho da Páscoa, etc.

Assim, a cada ano, naturalmente, eu era interpelado por uma criança que se intrigava por minha exótica – para ela – mania em me vestir de Papai Noel (ou Santa Claus). Sendo a mesma a única criança nas festividades natalinas de uma família já não tão mais católica como antes, o Papai Noel poderia, imaginava, ter um papel interessante na minha vida e na dela também. No mínimo, uma boa fonte de risadas.

Houve uma vez em que cheguei em sua casa e já levei na cara, antes de qualquer cumprimento ou abraço:

– Você não é o Papai Noel, é o tio Cláudio!

Tentei negar, mas a prova irrefutável estava na foto do Papai Noel do Shopping, aquele prostituto (brincadeira, acho o velhinho legal) que recebe por hora para sentar crianças que nunca viu na vida em seu colo durante dias.

Por que uma criança que já aprendeu desde sempre que não existe Papai Noel insiste em dizer que o verdadeiro Santa Claus seria outro que não seu tio ainda é algo que não compreendo completamente.

Os anos se passaram e, mesmo que eu não seja lá o mais católico dos mortais, descobri que havia outro aspecto divertido do Natal: ir já de barba e gorro vermelho, dirigindo, com a janela do carro aberta. Foi quando descobri que meu Papai Noel alegrava adultos, adolescentes e crianças. Ou melhor, alegrava crianças de todas as idades.

Houve aquela vez em que um surrado Fiat passou carregado de tias que acenavam para mim. Houve aquela outra em que vi uma menina do banco traseiro de um táxi, filmando-me com o celular. Houve também o menino que, do carro da frente, olhava-me intrigado. Claro, houve a das crianças que me perguntaram, do carro ao lado (em um daqueles momentos de semáforos vermelhos) se eu passaria na casa delas.

Mas houve também o menino de rua que me pediu algo e eu, desesperado, com aquela roupa vermelha, não conseguia sequer tirar um dinheiro do bolso, dando-lhe tão somente um aperto de mão algo triste. Foi assim que surgiu a idéia de fazer o que fiz este ano.

Mesmo tendo mudado radicalmente minha vida, mantive a promessa: iria fazer o que sempre fiz, alegrar minha sobrinha, mas também distribuiria alguns presentes simples para meninos que encontrasse na rua, tentando ganhar uns trocados.

Sei que há milhares de problemas. Sei que alguns destes meninos não deveriam estar nas ruas e que alguns até se envolvem em coisas piores. Mas momentos ruins todos temos. Conheço gente que mente, gente que manipula gente e até gente que rouba e, claro, nenhum deles está mendigando no sinal. Então, vamos nos entender aqui: o espírito de Natal consiste justamente em sentir o significado de misericórdia, perdão e amor, ok?

Tendo dito isto, eis minha odisséia, passo-a-passo. Vamos chamá-la de Roteiro de Santa Claus

1. Conversando com a funcionária da imobiliária (que me prometeu mandar o boleto por email até o dia 23, mas não o fez…ok, deu tudo certo, graças a Deus), descobri que existia um atacadão que vendia uns brinquedos mais simples a um bom preço. Foi o melhor presente de Natal que ela poderia me dar.

2. Saí direto de lá para a tal loja e me enchi de duas sacolas de brinquedos. Carreguei-a para a Universidade e depois, mais tarde, para casa, onde as coloquei em minhas malas. Peguei o ônibus, depois os aviões e cheguei em Belo Horizonte.

3. Cumpri minhas obrigações sociais e me preparei para o Natal em família. Cheguei na casa da minha sobrinha chutando o pau da barraca com o anúncio de que os que não acreditassem em Papai Noel não seriam agraciados com presentes e a menina prontamente se converteu em uma amiga deste Papai Noel, não sem tentar, a todo custo, derrubar meu argumento. Alguns exemplos:

– Mas se você é o Papai Noel, você não faz como o tio Claudio, que faz cócegas em crianças, né?

Ou:

– Por que o Papai Noel deixou as roupas com você, tio Claudio?

– Porque ele é preguiçoso e pediu para eu lavar para ele.

– Ah, tá…

Ou:

– Como é que o Papai Noel saiu pela janela do banheiro se ela tá bem fechadinha?

– É porque a tia Mayumi a fechou depois que ele saiu.

– Ah, tá…

Pois é. Ela não desiste. Mas voltemos ao roteiro.

4. Após esta comemoração do Natal em família, que este ano foi adiantado, preparei-me para minha missão mais difícil. A dúvida era se eu sairia ao longo dos dias, ou apenas no dia 24. Decidi pela segunda – e mais arriscada – opção. Também decidir que só entregaria presentes para as crianças e que não me importaria com o que elas fariam com os mesmos. Afinal, ninguém nunca me perguntou se vendi meu brinquedo e, pessoalmente, acredito que o indivíduo sabe o que é melhor para si próprio, seja ele pobre, rico, eleitor de bandidos, mentiroso compulsivo, chefe, torcedor do Vasco, etc.

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O bom, o mau e o feio…em apenas duas fotos!

5. No dia 24, joguei as sacolas no banco ao meu lado e saí dirigindo em busca de meninos de rua. Não foi fácil. Verifiquei que a maior parte dos que pedem dinheiro em sinal são adolescentes ou adultos. Poucas crianças eram vistas (eu bem poderia ter observado melhor nos dias anteriores para ver se isto só ocorre na véspera ou se, de fato, estaria diante de uma melhoria no quadro social, mas isto fica para o ano que vem…). Andei um bocado pela cidade, sob um trânsito nem sempre generoso (o final da manhã e o início da tarde do dia 24 não são períodos, digamos assim, tranquilos…) e, após entregar tudo, ainda reencontrei o mesmo menino que ganhou o primeiro presente que me indagou se eu tinha dado muitas voltas por aí.

Creio que cerca de uma dúzia (ou um pouco mais do que isto) de crianças recebeu alguns brinquedos. Não foram muitos, mas não me propus a corrigir os problemas do mundo, apenas o que podia fazer com o que pude gastar em tempo e dinheiro nesta tarefa.

Pois bem, durante esta epopéia, tive os pequenos prazeres de sempre: (a) mães animadas que me apontavam efusivamente para suas filhas não menos animadas (o legal é que, frequentemente, pais curtem mais do que os filhos esta brincadeira); (b) crianças acenando para mim e pais que as orientavam sobre se passaria ou não em suas casas à noite e; (c) este ano, ainda tive os simpáticos senhores e senhoras da terceira idade (ali no limite entre a segunda e a terceira) que, de dentro de um belo carro, ainda me chamaram para dizer que eu estava bem vestido (isso sim, é ser generoso) e, finalmente, (d) houve o frentista do posto que me lembrou que meu trenó estava bem diferente, sem renas, e o abasteceu dando-me, sem perceber, outro presente de Natal.

Eu sei, todos devem estar se perguntando: gostou? A resposta é simples: “é, gostei”. A sensação não dura para sempre e nem mudou completamente minha vida. Não sou outro e nem mereço canonização. Posso dizer que, sim, foi divertido e também cansativo.

Ah sim, há um ponto importante: pelo menos não fui um Papai Noel de uma criança só (ou de duas, se contarmos a mim mesmo) e este, meus poucos leitores, é o que entendo por espírito natalino.

Feliz Natal!

p.s. Não se engane: não acho que todos deveriam fazer o mesmo e nem que eu tenha que fazer isso todo ano (embora eu desconfie que isso não vá parar por aqui…). Acredito que não se impõe a terceiros tarefas como esta. Não me sinto moralmente melhor do que o leitor ou a leitora, vejam bem. Não se trata disto, ok? Cada qual com suas crenças, cada qual com seus valores. Mas se você sorriu com este relato, então você também pode não ter percebido, mas acaba de me dar um presente de Natal (ok, aceito DOC e TED na minha conta também).

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