O valor de R$ 3,75 para mim? Vale uma crônica.

Foi num sábado. Sim, um sábado que se seguira a uma sequência de semanas muito frias. Acordei surpreendido com o sol e, como já tinha que caminhar ao centro para passar no banco, saltei da cama, tirei a poeira do óculos de sol (que infelizmente não fiz bifocal) e saí de casa.

Após me abastecer com algumas notas – cujo valor a heterodoxia econômica conseguiu destruir parcialmente nos últimos anos – fui ao mesmo lugar que sempre vou quando quero tomar café aos sábados. Sim, sou um homem que se pode chamar de sistemático (mas não tanto para publicar aqui com periodicidade…ou talvez esta seja minha sistemática neste blog…vai saber).

anverso_da_cc3a9dula_de_20_reaisSentei-me, algo incomodado por não conseguir ver pela vidraça a rua, como geralmente me sento, mas o café preto, duplo, veio quentinho e saboroso, como sói ocorrer com qualquer café preto, duplo, minimamente bem preparado.

Durante algum tempo vi algumas mensagens no celular (sim, sou um homem moderno, tenho celular e, como um Japão em miniatura, também caso a tecnologia com o tradicional e, portanto, troco mensagens como todos fazemos, desde a era dos sinais de fumaça…). O café, aos poucos, ia se esvaindo na xícara, para minha (quase-)infinita tristeza, até que terminou.

Levantei-me e fui ao caixa para, com algum espanto, deparar-me com uma menina de uns dez anos. Logo a zelosa mãe se aproximou. Resolvi verificar o grau de liberdade e segurança da sociedade brasileira e, simulando uma meia seriedade (daquelas que se simulam quando se quer ser ambíguo), soltei:

– Trabalho infantil? Não pode.

Ela retrucou, num misto de humor e seriedade:

– Familiar pode.

Sorriu e, em troca, sorri. Senti uma tristeza porque percebi que a mãe demonstrou preocupação. A obesidade brasileira no que diz respeito às regras e à burocracia causa isto. Claro que não é um trabalho infantil, mas a nova geração construiu um Moloch que pensam ser a solução para os seus problemas. Não querem pensar, não querem enfrentar discussões, só querem enriquecer e jogar a educação dos seus filhos para as escolas. E querem seguir o exemplo de sua triste elite quando se sentem ameaçados: “- Olha que vou te processar”, dizem enchendo a boca de uma espuma bastante, digamos assim, raivosa.

Sim, Moloch é uma criação genuína deste povo e, pior, muitos o percebem e se calam porque esperam tirar vantagem disto tudo às custas da sociedade perpetuando, finalmente, tudo o que diziam ser desprezível e baixo. Digressões à parte, voltemos à bucólica narrativa.

Saquei do bolso uma nota de R$ 20,00 e disse para a menina, com um sorriso maroto:

– Pode me dar tudas de R$ 50,00.

A mãe sorriu e a filha mostrou um genuíno esforço para acertar a conta, mas a mãe não recolheu, entre notas e moedas, meu troco para os R$ 3,75: R$ 16,25. Com um bom humor que me inspirou a escrever tudo isto, disse:

– Veja, filha. O moço nos deu uma nota e ganhou umas notas e moedas. Saiu ganhando.

Respondi-lhes:

– Olha, agora me sinto até mais feliz!

Puxei a porta de vidro, saltei para o calçadão e voltei para casa pensando em quantas vezes já devo ter perdido ganhando. Voltei à infância por vários momentos em minha caminhada, pensando em como aprendemos a diferenciar a contagem de coisas do valor das ditas cujas. Alguns modelos microeconômicos tentaram se fazer presentes em minha mente, mas o sol se fez mais presente. Passei em outra loja, comprei o último volume de uma destas séries retrospectivas de histórias em quadrinhos da Marvel, a dos – pasmem – Supervilões Unidos, e voltei.

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