A mitologia das provas

“- Fêssor, o senhor é um mito!”

Foi assim que Aristófanes recebeu o cumprimento de seu aluno, ao final de mais uma extenuante aula de Microeconomia. Feliz com o elogio, voltou para casa e sentou-se no escritório para mais uma rodada de correção de trabalhos.

O frio intenso ajudava a justificar as – odiadas pela esposa – xícaras de café que Aristófanes sempre manipulava com extremo cuidado para não derramar a deliciosa droga sobre o material de aula.

Após corrigir algumas provas, notou um pacote empoeirado no canto da parede, sobre sua imensa mesa. Levantou-se e conseguiu alcançá-lo. Sim, era um pacote de provas de quatro anos atrás. Aristófanes não teve dúvidas: passou as provas no triturador. Gastou algum tempo, mas a turma não era tão grande.

Levantou-se novamente, foi até a cozinha e preparou um novo café. Refletiu um pouco sobre o frio e sobre como professores se cansam corrigindo provas. Provou do café e adoçou-o um pouco mais. Sim, estava quase no ponto ideal. Voltou ao escritório e se sentou. Já ia começar a corrigir as provas quando notou um pacote exatamente no lugar do anterior.

A sensação de dejà vu foi inevitável. Tirou a primeira prova do pacote e uma eletrizante sensação de terror o paralisou. Era a mesma primeira prova que acabara de transformar em papel picado. Esfregou os olhos. Sua mente não conseguia processar a idéia. Claro, só poderia estar cansado. Triturou, novamente, todas as provas e, para garantir, também o envelope.

Voltando à correção de suas provas, recusava-se a lançar seu olhar novamente ao canto da mesa. Um misto de terror e curiosidade, contudo, nunca é uma receita certa para se evitar novas tentativas. Ou você nunca assistiu a um filme de terror? Pois nosso amigo Aristófanes não fugiu à regra e, sim, deparou-se com o velho pacote. O mesmo. Exatamente ele. Abriu-o e viu a mesma prova. Parecia preso em um episódio de The Twilight Zone (o famoso Além da Imaginação). Lembrou-se do que dissera o aluno mais cedo.

“- Fêssor, o senhor é um mito!”

Seria uma praga? Seria ele um mito? Ou estaria vivendo um mito? Um mito que todo professor parece viver ao corrigir provas. Não se lembrava do mito. Que raios de mitologia era aquela? Olhou novamente e viu dois pacotes. Apavorou-se. Tentava lembrar o nome da figura mitológica. Olhou novamente e viu quatro pacotes.

“- Meu Deus, é progressão geométrica!”

Correu para a estante e procurou o surrado dicionário de mitologia grega, esquecido por ele há anos na biblioteca. Começou a percorrer o índice com os dedos suados e trêmulos.

“- Fênix! Fênix!” – gritou.

Olhou novamente. Não havia qualquer sinal dos pacotes de provas. Exausto, cochilou ali mesmo, debruçado sobre as provas. Sonhou que a cada aluno ruim reprovado, dois outros surgiam em seu lugar e, para seu desespero, novamente, tinha que recorrer ao dicionário grego para encontrar a Hidra, sim, aquela mesma dos quadrinhos do Capitão América.

Acordou na manhã seguinte tenso.

“- Da próxima vez que algum aluno me chamar de mito, vou bater três vezes na madeira” – pensou consigo mesmo…e preparou-se para as aulas na Academia.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s