A primeira justificativa a gente nunca esquece

Manhã de domingo. Ensaiava-se um sol bonito. Olhei-a e fui  ao ponto:

– Como posso fazer?

Ela me olhou, não diretamente nos olhos, mas com um ar atencioso, mas em um tom algo melancólico, algo educado, como se cansada daquilo tudo, enfim, uma expressão difícil de se desvendar.

– Espere um pouco que já fazemos.

Eu experimentava um misto de excitação e medo. Era virgem. Nunca, antes, na minha vida havia…

– Pode se preparar. Trouxe tudo?

– Sim, acho que…

Antes que eu pudesse esboçar um sorriso ou terminar a frase, ela me interrompeu.

– Deixa eu me preparar.

A ansiedade, a timidez, o medo de que nada desse certo…tudo aquilo me bloqueava. Podia sentir o suor escorrendo e o peso da responsabilidade me incomodando. O que diria para os amigos se tudo fosse por água abaixo? Ali estava eu, um indivíduo angustiado, ansioso, na zona. O que esperar? O que aconteceria ali ficaria…somente ali? Ou não? Estaria seguro? Minha excitação aumentava, quase podia ouvir o coração batendo. Enquanto eu divagava, a mesária assinou o requerimento e me disse:

– Pronto.

– É só isso?

– Sim, só.

Assim, de forma nua e crua, de uma só vez, tudo acabou. Não foi como sempre sonhei. Fantasiei por anos sobre como seria justificar meu voto. Imaginava algo mais emocionante, envolvente, um ato trágico, com diversos dilemas morais, imaginava-me ali discutindo mentalmente com vários Lockes, Burkes, Rousseaus, Humes. Ou pensava que teria um dilema terrível, que minha justificativa seria assinada a sangue de um combatente quase morto que lutara pelo direito de votar, mas teria fracassado no último minuto da batalha.

Minha fantasia desfez-se como uma nuvem de escasso algodão (como naquelas famosas espumas parnasianas). Não houve apelo da mesária pela minha consciência. Nenhuma frase como: “- O senhor me faça o favor de pensar melhor em seu dever cívico da próxima vez” ou “- Por que o senhor não se esforçou mais e votou? É tão importante para o país que o senhor exerça seu direito de votar obrigatoriamente em alguém…”.

Entretanto, nada disso aconteceu. Foi simplesmente eu, ali, sozinho, em frente à mesa, resolvendo tudo em menos de cinco minutos com a mesária e suas assistentes.

A primeira justificativa, sim, a gente nunca esquece.

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