Inácio e a prova

Inácio Silva não pensou duas vezes. Seria a quinta vez em cinco anos que tentaria emplacar o famoso: professor, meu avô morreu para escapar do exame especial, sua última chance de escapar da reprovação.

A mensagem já estava salva em sua caixa inbox. Copiou, colou, teve o cuidado de alterar a data e partes do texto e enviou.

Dizia, em poucas palavras, que queria muito fazer o exame especial, mas que precisava de ir ao enterro do avô e pedia para ser ganhar a nota que precisava apenas assinando seu nome na chamada. Invocava uma certa justiça cósmica em honra de seu pobre avô (que, eu sei que ninguém perguntou, mas vou dizer: estava, naquele exato momento, colocando um chifre de alce na vovó, em um bordel na periferia da cidade…).

Minutos depois, a resposta do professor chegou: Prezado Inácio Silva, proponho que venha fazer a prova amanhã pela manhã, já que sabemos que você estudou muito e não deseja ser injusto com os colegas e também não deseja burlar regras da faculdade.

Inácio sentiu sua coluna gelar, vértebra a vértebra, numa lentidão que poderia se dizer ser a personificação do conceito de eternidade. Logo ele, Inácio, que sempre escrevia textões nas redes sociais contra a desonestidade do brasileiro, a corrupção e a falta de critério na aplicação da justiça.

Não deu outra. Na manhã seguinte fez o exame e reprovou. Desde então, Inácio estuda há quinze anos na mesma faculdade. Sorte dele que os pais, que o acham um gênio incompreendido, ainda lhe pagam o curso.

 

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