Registro parcial sobre o Minyou e eu

Esta história se inicia em 1983, quando, assistindo ao Kouhaku Utagassen na casa da minha avó, eu descobri Nanbu Tawarazumi Uta cantada na voz do – sempre gigante –  Hosokawa Takashi, um cantor de Enka que veio da escola de Mihashi Michiya, por sua vez um cantor originariamente de músicas folclóricas (Minyou). Eu não sabia, mas aquilo iria me mudar para sempre.

Aos 12 anos eu decidi invadir a sala que meu pai mantinha sempre fechada – dizia que não queria incomodar – quando ouvia seus discos LP de música japonesa. Não me lembro quantas horas, ou mesmo dias, passei ouvindo praticamente todos os discos. Nunca mais consegui ouvir outras músicas. Minto, em um dia de finados – lá pelos meus 14 ou 15 anos – pela primeira vez em minha vida, ouvi uma estação de rádio FM. Tive minha época de ouvir Blitz, Queen e outras músicas. Mas não eram a mesma coisa. Até quando existia a versão japonesa, eu a preferia.

Pedi ao meu pai para me matricular na escola dominical de língua japonesa quando comecei a notar que as letras das músicas dos discos seguiam um padrão silábico. Bem, se eu já era alvo de piadas de japonês na escola, passei a ser alvo de piadas de brasileiro na outra. É um preço que paguei e pago há anos. Já me acostumei. As pessoas não vêem ao mundo com dispositivo de reconhecimento ancestral gratuito com 100% de acurácia…

Na escola japonesa fiz novos amigos e conheci o Karaokê. O que havia sido cantar em casa (ou para a avó, com orgulho…foi a boa e velha Kougenressha, cantada por Funaki Kazuo, de um discão com músicas cantadas por ele, Miyako Harumi e Misora Hibari) estava prestes a dar um salto…

Em uma daquelas festinhas da colônia, Flávia, uma colega que cantava a versão japonesa de Flashdance com um talento profissional, sabendo que eu gostava das músicas Enka, colocou o meu nome e o do outro mais amigo mais tímido, o César, na lista dos “cantores”. Foi ali que cantei Hisame (uma bela e melancólica música Enka dos anos 80) em frente a tanta gente e encarei o palco pela primeira vez (no ramo musical, digamos assim).

Dali para frente, a cada Ano Novo, ganhei novo impulso com o incentivo do meu tio Sérgio, que se orgulhava de me ver cantar. Acho que ainda se orgulha. Ele, que sempre adorou cantar, tinha uma caixa de som com entrada para fitas e microfone e, claro, várias músicas (um sonho de consumo para mim…). Cantei muito em vários primeiros dias do ano para a minha alegria e, claro, para a dele.

Os estudos de japonês foram parcialmente interrompidos com o advento da faculdade, mas não a paixão pelo Enka. Segui ouvindo músicas sozinho, sem muitos amigos que compartilhassem do meu gosto exótico (eles não têm culpa de terem um péssimo gosto…).

Naquele tempo, aliás, eu tentava descobrir o nome da música que – lembra do início do texto? – ouvira em 1983. Tinha a gravação do trecho do programa de TV em que ela aparecia em fita cassete (K-7), mas meu conhecimento de japonês era muito mais rudimentar do que é hoje. Cantava por repetição, sem entender muito da música. Perdia, portanto, um elemento essencial da música (mas isso não soa tão ruim assim, diante de alguns músicos de hoje…).

Ao começar o mestrado na USP numa época em que as gravadoras de música japonesa no Brasil (Victor Ono, Teichiku, Denon, King Records e, vez por outra, Toshiba) estavam saindo do mercado, descobri as fitas importadas. O CD era uma sensação. Lembro-me de viajar de ônibus para Belo Horizonte com um recém-comprado CD Player…

Saí, pois, em busca da música de 1983. Não me pergunte como. Eu perguntava das maneiras mais usuais: “- Ah, é uma música assim…”, etc. Quando finalmente achei uma fita, ela não vinha com a letra (por incrível que pareça…). Entretanto, ingenuamente pensei, agora eu tinha o nome da música para mostrar às pessoas e seguir em minha busca. Foi então que, num destes dias de sorte (?) encontrei um CD importado do Japão, lacrado. Quando achava que teria conseguido a letra, prepare-se: o CD importado do Japão, lacrado, veio com o CD errado dentro. Quantas vezes isso acontece com você?

Os anos se passaram e eu, assim que pude ter alguma condição financeira, passei a aproveitar as visitas do Ano Novo em São Paulo para assistir o Kouhaku (o show que iniciou isso tudo…). Meus estudos de japonês, algo irregulares, seguiram em frente. A música Enka, claro, sedimentou-se em meu coração.

Sen Masao, Miyako Harumi, Murata Hideo e até mesmo Minami Haruo e alguns modernos (que eu via com certa desconfiança no início) como Ken Naoko, Kawai Naoko, Sawada Kenji, Pink Lady (é, elas mesmo!), Sakurada Junko, Iwasaki Hiromi, Itsuki Hiroshi, Mori Massako, Yashiro Aki, Yoshi Ikuzo…não, a lista não termina aqui. Só não cabe.

Na sequência, eu me reaproximei da colônia e descobri o Sr. Abeki, que falava de Minyou. Junto com ele havia um jovem e talentoso cantor de Enka, Gustavo Eda que tinha um repertório tão grande quanto o meu. O Sr. Abeki me deu uma fita com a música que eu tanto buscava e me disse para ensaiar. Iniciei meus treinos e participei de um campeonato em São Gotardo. Certamente errei muita coisa, como uma criança erra em seus primeiros passos. Já Gustavo, este se sobressaía com qualquer música.

Os anos se passaram, Gustavo se consagrou ao Minyou e passei a ter aulas com ele (você deve ser sempre humilde e aprender com quem sabe, não é?). Comecei a frequentar os campeonatos nacionais da Kyoudo Minyou e conheci alguns professores incríveis. Vi o quanto era ruim e, logicamente, que poderia melhorar muito. Conquistei alguns troféus, sempre buscando a melhor forma de cantar esta ou aquela música. O palco do Minyou tornou-se meu melhor amigo e meu maior inimigo. Usei de todas as estratégias para me acalmar, concentrar-me, etc. Não, não há fórmula mágica.

Aos poucos o Minyou saiu de, digamos, 10% do meu interesse na música japonesa para algo como 90%.  Inicialmente fui convencido com o argumento de que quem canta bem Minyou canta Enka mais facilmente, o que é, de fato, verdade. Basta se lembrar de Mihashi Michiya, Hosokawa Takashi, Kouzai Kaori e, mais recentemente, meu favorito de Enka, Fukuda Kouhei. Mas o que era uma vontade de cantar melhor Enka transformou-se em uma vontade de cantar melhor.

Entrava ano, saia ano e lá estava eu, nervoso, no palco dos campeonatos. Houve anos que pensei em desistir. Houve outros que cheguei perto de conseguir o prêmio máximo. E houve 2011, quando, junto com Gustavo, conseguimos fazer uma apresentação de Yayu Fish (saiba mais sobre esse maravilhoso evento aqui) no Conservatório Musical da UFMG. Talvez tenha sido a primeira vez que uma dupla tão eclética – com sua maravilhosa mistura de Jazz com Minyou –   pisou naquele Conservatório (gostaria de acreditar nisso…). Tivemos o prazer de cantar com eles.

Mas eu ainda não estava pronto. Ainda cantava mal achando que estava bem. Seu maior inimigo, de fato, é você mesmo. O remédio é antigo e conhecido: treinar mais e mais.

Então chegou 2019.

Escolhi cantar primeiro Kenryou Bushi e, caso passasse para a etapa seguinte, a bela Dounan Kudoki Bushi. Durante meses, na dificuldade de praticar sem um local adequado, ensaiei muito a música que só cantaria se…fosse bem com a primeira e ensaiei menos a que deveria ensaiar mais. Não me pergunte, ok? Só sei que meu cérebro adora me sabotar.

Desci em São Paulo e descobri que, ao contrário do que sempre faço, não ter checado a previsão do tempo havia sido um erro. Lá estava eu, sem blusa, passando por um frio que a cidade não via há um bom tempo, mas determinado a cantar bonito.

Chegando ao local do evento, pedi aos amigos que me ajudassem a ensaiar. Tudo correu bem. Por acaso, bisbilhotei um exemplar do caderno com a programação e descobri que havia ensaiado pouco a música que poderia me classificar para a fase final. É, o frio evitou que eu suasse frio.

Desci até a garagem deserta, enchi-me de vontade e apurei meu Kenryou Bushi três vezes. O preço? A voz cansou. Ao voltar para o palco para o ensaio da outra música, não sustentava trechos e desafinava. Uma grande tristeza tomou conta de mim mas jantei e me deitei mais cedo no silêncio absoluto.

Acordei de madrugada e iniciei um jejum (só seria interrompido por um mochi doce com kinako pela manhã) que só teria uma pausa após cantar Kenryou Bushi que não desagradou aos juízes. O novo mochi, adquirido no local, era delicioso, recheado com nozes. Com frio, tomando chá verde e em jejum eu descobri que havia sido classificado. Deveria, então, cantar Dounan Kudoki Bushi. Tudo bem – pensei – o que (mais) poderia dar errado?

Atrás do palco, enquanto esperava minha vez, pensei em meus sobrinhos, em minha esposa e, de repente, pensei que não devia pensar em nada exceto em mim e na música ou melhor, pensar em minha relação com a música. É curioso como já devo ter tentado várias “formas” de concentração ao longo dos anos. Mas esta me pareceu a mais honesta e em sintonia com o espírito da música. Não sei se funcionará sempre, mas pareceu que funcionaria. Mas, de volta à narrativa, pela primeira vez em (provavelmente muitos) anos, aconteceu algo inédito.

Tendo sido apresentado à platéia, eu me preparava para cantar quando… a luz caiu. Ainda bem que foi antes (lembrou-me depois o Sr. Abeki). Cerca de dois minutos depois, a luz voltou. Entrei corretamente e cantei. Tive uma boa sensação – mas quantas vezes já me frustrei? – e busquei apagá-la rapidamente, tentando não gerar um otimismo enganador.

O resto da história, desta vez, seria diferente. Em vários aspectos, aliás. Ninguém filmou as duas apresentações (não houve filmagem oficial este ano), quase nenhuma foto foi tirada (a equipe de MG estava desfalcada) e, para minha felicidade, eu consegui a conquista da primeira colocação. Sim, isso mesmo!

Você pode me perguntar se a sensação é boa. É. Mas é mais importante lembrar que, a partir de agora, poderei melhorar minha performance, perceber melhor meus erros e ajudar a Associação Kyoudo Minyou, que me acolheu durante todos estes anos como um participante assíduo, a disseminar o Minyou.

Certa vez, em um momento de angústia, desabafei com o jovem – mas sábio – Gustavo: “- Puxa, poucos jovens cantam Minyou. Assim o Minyou vai morrer”. Ao que ele me disse: “- Se você cantar o Minyou, ele estará vivo”. Ele tem razão e, hoje, mais do que nunca, eu percebo a ampla dimensão de sua resposta.

O Minyou viverá sempre que eu cantar. Ele vive sempre que alguém o canta. O Minyou é a alma do Japão, é a alma da cidade natal, aquela que sempre ressurge em nossos sonhos quando longe dela estamos. Lembro disso sempre quando vejo o símbolo da Kyoudo Minyou que, a propósito, é uma Fênix.

Embora tenha omitido várias pessoas e detalhes, este é um relato que gostaria de deixar registrado pois temo me esquecer dele um dia por algum motivo de doença. Talvez não tenha ficado bem escrito, talvez não lhe inspire, mas eu sentia que, embora ainda haja um longo caminho no mundo do Minyou, valia um registro parcial.

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