O entusiasta do aprendizado

Desde que se entendia por gente era assim. Ainda criança, aprendeu a ler e a escrever.

– Letras! Palavras! Tantas combinações! Certamente mudará meu jeito de pensar…aliás, alguém poderá mudar várias coisas no mundo se….

Depois foram os números.

– Matemática é sensacional! Como é legal somar, subtrair, parece magia…alguém que domine isto certamente entenderá tudo no mundo…

Com o andar da carruagem da idade, nosso entusiasta aprendeu novas disciplinas.

– Geografia molda o mundo! Como alguém pode achar que será algo na vida sem estudar a geografia!

– História!! O passado tem tudo a me ensinar! Lições do passado certamente me ajudarão a ser alguém na vida…

– Física é tão interessante…como alguém pode achar que é inteligente se não entende dos processos físicos que nos cercam…

– Química é quase um milagre! Impossível mudar o mundo sem saber esta disciplina! Por que não me ensinaram isso antes?

Assim, a cada nova disciplina aprendida, o entusiasta quase enlouquecia de alegria. Para ele, cada disciplina teria uma forma de raciocínio peculiar que seria, em si, a fórmula para que ele mudasse o mundo de alguma forma.

Então veio o vestibular e ele escolheu um curso. A cada disciplina, o mesmo ritual. Cada uma dela conteria, segundo ele, a solução para resolver todos os problemas do mundo.

Como sabemos, as estações do ano não param e o entusiasta continuava sua inconsistente, mas entusiasmada jornada em busca da pedra filosofal que, imaginava, iria satisfazer sua fome de conhecimento. Não satisfeito com a graduação, avançou para o mestrado, o doutorado e buscou trabalhar sempre complementando a Academia com o mundo não-acadêmico.

Um dia, já muito velho, deu-se conta que a solução da pergunta que nunca conseguira formular jamais existiria. Nem cada disciplina, nem combinações das mesmas, nada disso importava. O que tinha importado para ele, o tempo todo, tinha sido a sua satisfação em aprender. Não fora uma jornada linear, não havia sido sempre fácil ou simples. Não. Foi uma luta ansiosa em busca de uma resposta incerta de uma pergunta que, se existiu alguma vez, foi ofuscada pela alegria de aprender.

Morreu sorrindo.

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Finalmente descobri que…

Passei anos da minha vida achando que tinha um retardo mental, que era um retardado mesmo (retardados não dizem “retardo mental”). Tudo porque sempre, sendo canhoto, ficava com o laço do calçado do pé direito frouxo com inevitáveis pausas na caminhada – para incômodo dos amigos – para tentar um novo (e potencialmente fracassado) laço com o cadarço do pé direito.

Muitas hipóteses me passaram pela cabeça nestes anos todos: (a) os cadarços poderiam vir com um defeito sempre no pé direito, (b) os cadarços do pé direito foram criados por alienígenas que pretendiam conquistar a Terra numa batalha em que soldados teriam que parar para tentarem laços em seus coturnos desamarrados…, (c) eu vivia em um universo paralelo (aquele em que o Spock tem barba) e, no pior dos pesadelos, no universo normal o cadarço do pé esquerdo é que seria o problema.

Não vou listar todas as hipóteses para não cansar ninguém. Passou-me pela cabeça até que eu jamais passaria no vestibular e seria um fracasso na vida, terminando-a na sarjeta, esmolando e sendo discriminado pela sociedade. Claro, esta aí não durou um segundo na minha mente porque tenho alguma noção de ridículo.

Foram anos pensando nisto, tentando entender o que eu era, os motivos para estar sendo poupado pela vida selvagem da sociedade a despeito de não conseguir dar um nó decente no cadarço direito. Talvez tenha escolhido o que escolhi por conta disto. Talvez esta fosse minha mais marcante característica genética, uma condenação eterna me dada pela loteria da natureza.

Até que descobri que um colega tem o mesmo problema, só que no pé esquerdo. Desde aquele dia eu me senti bem mais aliviado. Isso foi há umas duas semanas. Eu fiquei feliz em perceber que não era único. Contudo, de uns dias para cá, começo a pensar nos motivos de existirem pessoas assim. Será que somos ligados a alguma missão oculta em nosso cérebro, a ser ativada por nano-robôs que foram colocados em alguns de nós logo após o parto, por uma sociedade secreta? A verdade está lá fora? Se sim, onde é o lado de dentro? A quem interessa esconder da sociedade que existem pessoas que não conseguem dar um nó no cadarço de apenas um pé?

Percebo que a conspiração é maior do que pensava…

#EuVouSubir

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Outro dia estávamos eu e minha esposa em alguma calçada quando ouvimos uma insistente buzina, daquelas que você reluta em procurar porque sabe que pode ser para você.

Não deu outra: era um conhecido, dono de um comércio local, que, de dentro do carro, desafiando a falta de vigilância policial e os segundos que faltavam para o sinal abrir, balançava a bandeira do time adversário para mim, em tom de provocação saudável. O sinal abriu e ele se foi.

– Como assim “saudável”? , você perguntará.

Saudável naquele sentido de provocação infantil em que crianças se provocam mas não chegam às vias de fato. Foi assim mesmo que me senti naquele momento. Parecia que havíamos sido transportados no tempo para uma época em que não nos preocupávamos tanto com dinheiro, saúde ou, arrisco em dizer, violência nas ruas. Um tempo em que a gente se sentava na calçada e conversava até a hora do jantar que, geralmente, era às 18 h.

Deixemos de lado esta agradável viagem no tempo. Façamos outro corte. Vamos à uma manhã mais recente, em que eu fazia minha caminhada tentando me convencer de que emagrecerei se sair por aí andando em passo acelerado. A caminhada me levou, claro, até a Boca do Lobo – o estádio mais antigo do Brasil, salvo engano – lar do meu time em Pelotas, o Esporte Clube Pelotas (conhecido popularmente como Lobão).

A única loja de produtos do clube fica localizada ali, na Boca do Lobo e não é que dela saiu um menino, um moleque mesmo, destes que estão ali em seus 10 ou 11 anos? Ele me viu, todo uniformizado, e deixando de lado os cumprimentos, foi direto ao assunto:

– Moço, o senhor sabe se o time tá treinando hoje? Já fui em tudo que é lugar aqui e não tem ninguém.

– Você saiu da Lobomania, né? Tentou a Central de Sócios?

Apontei a ele a entrada da Central que ele, que já tinha fuçado tudo que é canto – provavelmente havia entrado no estádio até – não tinha visto. Da mesma forma que veio, foi-se: todo alegre e animado foi à Central.

Há algo de espontâneo e de felicidade quando se leva a paixão pelo futebol para algo saudável, não-violento. A propósito, #EuVouSubir, ok? O Lobão quer voltar à elite do futebol gaúcho e estou na torcida. Consegui até, graças à boa vontade daquela turma animada da administração do Lobão, os autógrafos deste time. Estão na foto aí no alto que tinha autógrafos de parte da turma do ano passado.

A pechincha do bastardo

Era a tarde do dia 31 de Janeiro. Geralmente, as lojas no bairro da Liberdade fecham às 17 h e lá estávamos nós, em busca de um presente para minha prima.

De longe avistei a loja dos coreanos emitindo sinais de que iria fechar. Corremos e entramos antes que eles pudessem dizer qualquer palavra. Uma vez lá dentro, iniciamos a longa busca por algo que pudesse ser mais do que uma lembrança (a loja é variada). Com muito custo, achei um daqueles sakês com ouro. Coisa fina, não muito barata, mas, vejam, minha prima merece.

Além disso, eu queria comprar um tubinho de pasta de pimenta coreana e, por uns R$ 8,00 ou R$ 10,00, dado que não havia mais lojas para uma pesquisa, coloquei-o também no cesto.

Chegamos ao caixa e o diálogo travado entre o bastardo pechinchador e o pobre adolescente trabalhador foi mais ou menos assim.

–  Senhor, são R$ XXX,00.

– Ok. Você embrulha para presente?

– Sim, mas aí acrescento mais R$ 1,00.

– Hum, ok, mas a pasta de pimenta não é para presente. Então você pode cobrar “menos um real” e ficamos iguais.

Sorri, com aquela cara de Mona Lisa. O vendedor me olhou meio intrigado. Pude perceber que ele estava em dúvida se eu era: (a) maluco, (b) sacana, (c) metido à besta ou (d) uma combinação não-usual dos três.

Minha esposa resolveu me acompanhar no sorriso e tentou acalmá-lo:

– Ele é sempre assim, brincalhão.

Saímos de lá com o sakê embrulhado, a pasta de pimenta, uma sacola bacana e um calendário muito bonito. Quem diria.

Esta foi a pechincha do bastardo.

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A primeira justificativa a gente nunca esquece

Manhã de domingo. Ensaiava-se um sol bonito. Olhei-a e fui  ao ponto:

– Como posso fazer?

Ela me olhou, não diretamente nos olhos, mas com um ar atencioso, mas em um tom algo melancólico, algo educado, como se cansada daquilo tudo, enfim, uma expressão difícil de se desvendar.

– Espere um pouco que já fazemos.

Eu experimentava um misto de excitação e medo. Era virgem. Nunca, antes, na minha vida havia…

– Pode se preparar. Trouxe tudo?

– Sim, acho que…

Antes que eu pudesse esboçar um sorriso ou terminar a frase, ela me interrompeu.

– Deixa eu me preparar.

A ansiedade, a timidez, o medo de que nada desse certo…tudo aquilo me bloqueava. Podia sentir o suor escorrendo e o peso da responsabilidade me incomodando. O que diria para os amigos se tudo fosse por água abaixo? Ali estava eu, um indivíduo angustiado, ansioso, na zona. O que esperar? O que aconteceria ali ficaria…somente ali? Ou não? Estaria seguro? Minha excitação aumentava, quase podia ouvir o coração batendo. Enquanto eu divagava, a mesária assinou o requerimento e me disse:

– Pronto.

– É só isso?

– Sim, só.

Assim, de forma nua e crua, de uma só vez, tudo acabou. Não foi como sempre sonhei. Fantasiei por anos sobre como seria justificar meu voto. Imaginava algo mais emocionante, envolvente, um ato trágico, com diversos dilemas morais, imaginava-me ali discutindo mentalmente com vários Lockes, Burkes, Rousseaus, Humes. Ou pensava que teria um dilema terrível, que minha justificativa seria assinada a sangue de um combatente quase morto que lutara pelo direito de votar, mas teria fracassado no último minuto da batalha.

Minha fantasia desfez-se como uma nuvem de escasso algodão (como naquelas famosas espumas parnasianas). Não houve apelo da mesária pela minha consciência. Nenhuma frase como: “- O senhor me faça o favor de pensar melhor em seu dever cívico da próxima vez” ou “- Por que o senhor não se esforçou mais e votou? É tão importante para o país que o senhor exerça seu direito de votar obrigatoriamente em alguém…”.

Entretanto, nada disso aconteceu. Foi simplesmente eu, ali, sozinho, em frente à mesa, resolvendo tudo em menos de cinco minutos com a mesária e suas assistentes.

A primeira justificativa, sim, a gente nunca esquece.

A mitologia das provas

“- Fêssor, o senhor é um mito!”

Foi assim que Aristófanes recebeu o cumprimento de seu aluno, ao final de mais uma extenuante aula de Microeconomia. Feliz com o elogio, voltou para casa e sentou-se no escritório para mais uma rodada de correção de trabalhos.

O frio intenso ajudava a justificar as – odiadas pela esposa – xícaras de café que Aristófanes sempre manipulava com extremo cuidado para não derramar a deliciosa droga sobre o material de aula.

Após corrigir algumas provas, notou um pacote empoeirado no canto da parede, sobre sua imensa mesa. Levantou-se e conseguiu alcançá-lo. Sim, era um pacote de provas de quatro anos atrás. Aristófanes não teve dúvidas: passou as provas no triturador. Gastou algum tempo, mas a turma não era tão grande.

Levantou-se novamente, foi até a cozinha e preparou um novo café. Refletiu um pouco sobre o frio e sobre como professores se cansam corrigindo provas. Provou do café e adoçou-o um pouco mais. Sim, estava quase no ponto ideal. Voltou ao escritório e se sentou. Já ia começar a corrigir as provas quando notou um pacote exatamente no lugar do anterior.

A sensação de dejà vu foi inevitável. Tirou a primeira prova do pacote e uma eletrizante sensação de terror o paralisou. Era a mesma primeira prova que acabara de transformar em papel picado. Esfregou os olhos. Sua mente não conseguia processar a idéia. Claro, só poderia estar cansado. Triturou, novamente, todas as provas e, para garantir, também o envelope.

Voltando à correção de suas provas, recusava-se a lançar seu olhar novamente ao canto da mesa. Um misto de terror e curiosidade, contudo, nunca é uma receita certa para se evitar novas tentativas. Ou você nunca assistiu a um filme de terror? Pois nosso amigo Aristófanes não fugiu à regra e, sim, deparou-se com o velho pacote. O mesmo. Exatamente ele. Abriu-o e viu a mesma prova. Parecia preso em um episódio de The Twilight Zone (o famoso Além da Imaginação). Lembrou-se do que dissera o aluno mais cedo.

“- Fêssor, o senhor é um mito!”

Seria uma praga? Seria ele um mito? Ou estaria vivendo um mito? Um mito que todo professor parece viver ao corrigir provas. Não se lembrava do mito. Que raios de mitologia era aquela? Olhou novamente e viu dois pacotes. Apavorou-se. Tentava lembrar o nome da figura mitológica. Olhou novamente e viu quatro pacotes.

“- Meu Deus, é progressão geométrica!”

Correu para a estante e procurou o surrado dicionário de mitologia grega, esquecido por ele há anos na biblioteca. Começou a percorrer o índice com os dedos suados e trêmulos.

“- Fênix! Fênix!” – gritou.

Olhou novamente. Não havia qualquer sinal dos pacotes de provas. Exausto, cochilou ali mesmo, debruçado sobre as provas. Sonhou que a cada aluno ruim reprovado, dois outros surgiam em seu lugar e, para seu desespero, novamente, tinha que recorrer ao dicionário grego para encontrar a Hidra, sim, aquela mesma dos quadrinhos do Capitão América.

Acordou na manhã seguinte tenso.

“- Da próxima vez que algum aluno me chamar de mito, vou bater três vezes na madeira” – pensou consigo mesmo…e preparou-se para as aulas na Academia.

O valor de R$ 3,75 para mim? Vale uma crônica.

Foi num sábado. Sim, um sábado que se seguira a uma sequência de semanas muito frias. Acordei surpreendido com o sol e, como já tinha que caminhar ao centro para passar no banco, saltei da cama, tirei a poeira do óculos de sol (que infelizmente não fiz bifocal) e saí de casa.

Após me abastecer com algumas notas – cujo valor a heterodoxia econômica conseguiu destruir parcialmente nos últimos anos – fui ao mesmo lugar que sempre vou quando quero tomar café aos sábados. Sim, sou um homem que se pode chamar de sistemático (mas não tanto para publicar aqui com periodicidade…ou talvez esta seja minha sistemática neste blog…vai saber).

anverso_da_cc3a9dula_de_20_reaisSentei-me, algo incomodado por não conseguir ver pela vidraça a rua, como geralmente me sento, mas o café preto, duplo, veio quentinho e saboroso, como sói ocorrer com qualquer café preto, duplo, minimamente bem preparado.

Durante algum tempo vi algumas mensagens no celular (sim, sou um homem moderno, tenho celular e, como um Japão em miniatura, também caso a tecnologia com o tradicional e, portanto, troco mensagens como todos fazemos, desde a era dos sinais de fumaça…). O café, aos poucos, ia se esvaindo na xícara, para minha (quase-)infinita tristeza, até que terminou.

Levantei-me e fui ao caixa para, com algum espanto, deparar-me com uma menina de uns dez anos. Logo a zelosa mãe se aproximou. Resolvi verificar o grau de liberdade e segurança da sociedade brasileira e, simulando uma meia seriedade (daquelas que se simulam quando se quer ser ambíguo), soltei:

– Trabalho infantil? Não pode.

Ela retrucou, num misto de humor e seriedade:

– Familiar pode.

Sorriu e, em troca, sorri. Senti uma tristeza porque percebi que a mãe demonstrou preocupação. A obesidade brasileira no que diz respeito às regras e à burocracia causa isto. Claro que não é um trabalho infantil, mas a nova geração construiu um Moloch que pensam ser a solução para os seus problemas. Não querem pensar, não querem enfrentar discussões, só querem enriquecer e jogar a educação dos seus filhos para as escolas. E querem seguir o exemplo de sua triste elite quando se sentem ameaçados: “- Olha que vou te processar”, dizem enchendo a boca de uma espuma bastante, digamos assim, raivosa.

Sim, Moloch é uma criação genuína deste povo e, pior, muitos o percebem e se calam porque esperam tirar vantagem disto tudo às custas da sociedade perpetuando, finalmente, tudo o que diziam ser desprezível e baixo. Digressões à parte, voltemos à bucólica narrativa.

Saquei do bolso uma nota de R$ 20,00 e disse para a menina, com um sorriso maroto:

– Pode me dar tudas de R$ 50,00.

A mãe sorriu e a filha mostrou um genuíno esforço para acertar a conta, mas a mãe não recolheu, entre notas e moedas, meu troco para os R$ 3,75: R$ 16,25. Com um bom humor que me inspirou a escrever tudo isto, disse:

– Veja, filha. O moço nos deu uma nota e ganhou umas notas e moedas. Saiu ganhando.

Respondi-lhes:

– Olha, agora me sinto até mais feliz!

Puxei a porta de vidro, saltei para o calçadão e voltei para casa pensando em quantas vezes já devo ter perdido ganhando. Voltei à infância por vários momentos em minha caminhada, pensando em como aprendemos a diferenciar a contagem de coisas do valor das ditas cujas. Alguns modelos microeconômicos tentaram se fazer presentes em minha mente, mas o sol se fez mais presente. Passei em outra loja, comprei o último volume de uma destas séries retrospectivas de histórias em quadrinhos da Marvel, a dos – pasmem – Supervilões Unidos, e voltei.