Frajolíticas IV: Uma nova esperança

Ao se ver no colo de Gabi, vigiada por Rebeca, por mim e pelo veterinário, Frajolinha percebeu que corria algum risco. Pensou no que teria que aguentar: burocracia do plano de saúde, co-participação, dias sem beber água da piscina…ou pensou se não estaria sendo levada para experiências em agências secretas do governo visando o avanço de algum programa militar secreto…ou ainda se seria transformada em couro de tamborim.

Assim, saltou. Saltou como se fosse a última chance de sua vida. Saltou pensando que estava se libertando dos seus mais terríveis pesadelos (em câmera lenta, era quase uma icônica cena de Free Willy…).

Duas horas depois reclamava com as mesmas pessoas pela falta de wasabi no seu jantar.

Pensou que terminou? Que nada!

Após o narrado acima, no final do dia, eu esperava meu Uber quando o gato branco, ele mesmo, o que sempre implica com a Frajolinha, o metido a machão, que passei a chamar de Popeye (dado que perdeu a visão em um dos olhos ao se meter em alguma briga), surpreendeu. Aproximou-se e começou a se enroscar entre minhas pernas.

Obviamente, a explicação é uma só: tendo sido testemunha do papelão frajolítico da tarde, o espertalhão veio se oferecer como novo receptáculo para as rações que deixo diariamente para Frajolinha.

Melhor dizendo, só faltou dizer: “- É, meu jovem, preciso de um serviçal para me servir sushi pelas manhãs. Viu só aquela vagabunda? Ela nem quis se vacinar…você deveria trabalhar para mim. Vou abrir processo seletivo mas posso te chamar primeiro…”.

Porém, o Uber chegou e, com ele, foi-se embora a chance de alegria do gatuno…

WhatsApp Image 2020-02-04 at 12.01.00 PM

Como não pensei nisto antes? Eu te digo como.

Fascinado com a famosa cidade chinesa de Shenzhen (Shenzen, 深圳), o sujeito vai ao pai dos burros em busca de esclarecimento para o segundo ideograma de seu nome (o primeiro nem merece atenção…fácil de achar no google, né?).
Em sua longa e tenebrosa jornada pelo mundo da língua japonesa, ele sabe que 川 é um rio (pequeno/estreito, não um rio grande).
Mas ele nunca viu este ideograma com o radical de terra à esquerda 圳.
Rapidamente, ele encontra a página do wiktionary! Esperança! https://en.wiktionary.org/wiki/%E5%9C%B3  . Alegri…..ops…

Definitions[edit]

  1. The meaning of this term is uncertain.
Antes que o desespero acabasse com sua esperança, o mesmo instrumento de destruição, a Wikipedia, dá-lhe uma resposta (https://en.wikipedia.org/wiki/Shenzhen).
Shenzhen was named after the deep waters (Chinesepinyinshēn; literally: ‘deep’) and a drain (圳) in the edge of the field that were both located within the area, so when combined, the name means “deep drains.”
Voltando ao verbete da Wikipedia, ele descobre que estava lá tudo lá, para quem (supostamente) soubesse ler e interpretar.
For pronunciation and definitions of  – see  (“a little drain between fields; field”).
(This character, , is a variant form of .) 
A moral da história é, portanto, uma reflexão: como não pensei nisto antes?
Pois é. Bom dia.
p.s. vários ideogramas não têm mesmo significado. (ok, 5 minutos do seu dia já foram jogados fora…)

Oswaldo ou Osvaldo?

Apavorado com o esquecimento do aniversário da esposa – um doce de pessoa, exceto quando esquecem o aniversário dela – o marido foi informado que havia uma saída: a internet. Não exatamente, mas a internet tem o milagre das compras online com entrega no mesmo dia. Foi o caso da loja de flores.

Em uma luta contra o tempo que poderia lhe custar a vida (ah, se Suleimani tivesse esperado a carona…), concluiu o pedido no site. Em seu parco romantismo (ou parca inteligência), enviou um cartão sem seu nome.

– Quando eu ligar, será uma surpresa!

Horas depois, preocupado, liga para a esposa. Ela imediatamente lhe pergunta, em ríspido tom de voz:

– Foi você quem mandou isso?

– Isso o que?

– Olha aí a foto no seu celular, desmemoriado!

Instantes se passam.

– Sim, sim. Gostou?

– Quase não recebi.

– Como assim?

– O entregador falou que eram de um tal Oswaldo…

O marido se transformou.

– Como assim, Osvaldo?

– Pois é, Oswaldo.

– Peraí, Osvaldo ou Oswaldo?

– Como assim?

– Osvaldo com “v” ou com “w”?

– Faz diferença? Enlouqueceu?

– Você está se evadindo da pergunta!

– Sei lá se é com “v” ou com “w”?

– Você recebe flores de um cara e nem sabe como escrever o nome dele?

– Espere, eu disse que o entregador é qu…

– Eu aqui, enviando flores, mas você só pensa no Osvaldo, ou Oswaldo…já nem sei…

– Não, espere, você está exag…

– Não acredito que você não checou a grafia do nome…

– Claudio, você teve problemas com sua professora de Português no jardim?

– Osvaldo, Oswaldo…tanto faz…nada mais faz sentido…

– Cláudio, acorda!

– O que foi?

– Estou falando com você, Cláudio!

– Cláudio ou Claudio?

Enfurecida, a esposa desligou o telefone. O divórcio foi negociado uma semana depois por Dione. Ou pela Dione? Já não tenho certeza.

Conto de Natal: O abacaxi que faz xixi

320px-കൈതച്ചക്ക[1]A noite de Natal passou e, no dia 25, presentes foram abertos. Mais que resolver uma certa obrigação familiar, o ritual anual resolve parte da magia que todos gostaríamos de ver continuamente no núcleo familiar. Mas este núcleo familiar é apenas um pedaço da família, aquela que reúne tios, avós ou avôs. Esta, geralmente, reúne-se no almoço do dia 25.

A história do abacaxi que faz xixi se inicia neste almoço. É nesta data, 25 de dezembro, que um tio obcecado com a ideia de que deve trazer alegria a seus sobrinhos insiste em se vestir de Papai Noel e distribuir presentes. Reconhecido ou não pela criançada, ele não desiste. Afinal, diz o lema: o show não pode parar.

No mais recente episódio anual deste seriado, o tio novamente conseguiu arrancar um sorriso imenso de seu sobrinho que, retrospectivamente assistindo a um dos vídeos (obrigado, celulares, por suas câmeras!), entregando-lhe presentes e fazendo-lhe de ajudante para entregar presentes aos familiares.

Foi mais ou menos no meio desta alegria que alguém teve a ideia de tirar uma foto familiar…com o visitante Papai Noel. Ao invés de: “olha o passarinho”, “cheese” (dos japoneses), ou “xis”, o sobrinho diz: “olha o abacaxi”!

Não deu outra. Papai Noel complementou: “olha o abacaxi que faz xixi”, arrancando mais daquelas gargalhadas que só uma criança consegue arrancar daqueles pequenos pulmões…

Foto feita, Papai Noel aproveita o momento e se despede. Sobe as escadas e, após alguns minutos, um tio esbaforido chega reclamando do atraso no vôo. À mesa, seu pequeno sobrinho almoça e começam a conversar. Lá pelas tantas, gargalhadas se misturam com a nova frase: “abacaxi que faz xixiabacaxi que faz xixi, ha ha ha”.

O tio, então, pergunta: “você inventou isto”? E a resposta vem: “foi o Papai Noel”.

Satisfeito, o tio sorri e diz: “mas vejam só que Papai Noel mais engraçado”.

O disfarce foi perfeito, mas a personalidade do bom velhinho é muito parecida com a do tio, embora isso ainda não seja percebido pelo pequeno, ainda.

Que cada um de vocês encontre seu abacaxi que faz xixi em 2020!

Registro parcial sobre o Minyou e eu

Esta história se inicia em 1983, quando, assistindo ao Kouhaku Utagassen na casa da minha avó, eu descobri Nanbu Tawarazumi Uta cantada na voz do – sempre gigante –  Hosokawa Takashi, um cantor de Enka que veio da escola de Mihashi Michiya, por sua vez um cantor originariamente de músicas folclóricas (Minyou). Eu não sabia, mas aquilo iria me mudar para sempre.

Aos 12 anos eu decidi invadir a sala que meu pai mantinha sempre fechada – dizia que não queria incomodar – quando ouvia seus discos LP de música japonesa. Não me lembro quantas horas, ou mesmo dias, passei ouvindo praticamente todos os discos. Nunca mais consegui ouvir outras músicas. Minto, em um dia de finados – lá pelos meus 14 ou 15 anos – pela primeira vez em minha vida, ouvi uma estação de rádio FM. Tive minha época de ouvir Blitz, Queen e outras músicas. Mas não eram a mesma coisa. Até quando existia a versão japonesa, eu a preferia.

Pedi ao meu pai para me matricular na escola dominical de língua japonesa quando comecei a notar que as letras das músicas dos discos seguiam um padrão silábico. Bem, se eu já era alvo de piadas de japonês na escola, passei a ser alvo de piadas de brasileiro na outra. É um preço que paguei e pago há anos. Já me acostumei. As pessoas não vêem ao mundo com dispositivo de reconhecimento ancestral gratuito com 100% de acurácia…

Na escola japonesa fiz novos amigos e conheci o Karaokê. O que havia sido cantar em casa (ou para a avó, com orgulho…foi a boa e velha Kougenressha, cantada por Funaki Kazuo, de um discão com músicas cantadas por ele, Miyako Harumi e Misora Hibari) estava prestes a dar um salto…

Em uma daquelas festinhas da colônia, Flávia, uma colega que cantava a versão japonesa de Flashdance com um talento profissional, sabendo que eu gostava das músicas Enka, colocou o meu nome e o do outro mais amigo mais tímido, o César, na lista dos “cantores”. Foi ali que cantei Hisame (uma bela e melancólica música Enka dos anos 80) em frente a tanta gente e encarei o palco pela primeira vez (no ramo musical, digamos assim).

Dali para frente, a cada Ano Novo, ganhei novo impulso com o incentivo do meu tio Sérgio, que se orgulhava de me ver cantar. Acho que ainda se orgulha. Ele, que sempre adorou cantar, tinha uma caixa de som com entrada para fitas e microfone e, claro, várias músicas (um sonho de consumo para mim…). Cantei muito em vários primeiros dias do ano para a minha alegria e, claro, para a dele.

Os estudos de japonês foram parcialmente interrompidos com o advento da faculdade, mas não a paixão pelo Enka. Segui ouvindo músicas sozinho, sem muitos amigos que compartilhassem do meu gosto exótico (eles não têm culpa de terem um péssimo gosto…).

Naquele tempo, aliás, eu tentava descobrir o nome da música que – lembra do início do texto? – ouvira em 1983. Tinha a gravação do trecho do programa de TV em que ela aparecia em fita cassete (K-7), mas meu conhecimento de japonês era muito mais rudimentar do que é hoje. Cantava por repetição, sem entender muito da música. Perdia, portanto, um elemento essencial da música (mas isso não soa tão ruim assim, diante de alguns músicos de hoje…).

Ao começar o mestrado na USP numa época em que as gravadoras de música japonesa no Brasil (Victor Ono, Teichiku, Denon, King Records e, vez por outra, Toshiba) estavam saindo do mercado, descobri as fitas importadas. O CD era uma sensação. Lembro-me de viajar de ônibus para Belo Horizonte com um recém-comprado CD Player…

Saí, pois, em busca da música de 1983. Não me pergunte como. Eu perguntava das maneiras mais usuais: “- Ah, é uma música assim…”, etc. Quando finalmente achei uma fita, ela não vinha com a letra (por incrível que pareça…). Entretanto, ingenuamente pensei, agora eu tinha o nome da música para mostrar às pessoas e seguir em minha busca. Foi então que, num destes dias de sorte (?) encontrei um CD importado do Japão, lacrado. Quando achava que teria conseguido a letra, prepare-se: o CD importado do Japão, lacrado, veio com o CD errado dentro. Quantas vezes isso acontece com você?

Os anos se passaram e eu, assim que pude ter alguma condição financeira, passei a aproveitar as visitas do Ano Novo em São Paulo para assistir o Kouhaku (o show que iniciou isso tudo…). Meus estudos de japonês, algo irregulares, seguiram em frente. A música Enka, claro, sedimentou-se em meu coração.

Sen Masao, Miyako Harumi, Murata Hideo e até mesmo Minami Haruo e alguns modernos (que eu via com certa desconfiança no início) como Ken Naoko, Kawai Naoko, Sawada Kenji, Pink Lady (é, elas mesmo!), Sakurada Junko, Iwasaki Hiromi, Itsuki Hiroshi, Mori Massako, Yashiro Aki, Yoshi Ikuzo…não, a lista não termina aqui. Só não cabe.

Na sequência, eu me reaproximei da colônia e descobri o Sr. Abeki, que falava de Minyou. Junto com ele havia um jovem e talentoso cantor de Enka, Gustavo Eda que tinha um repertório tão grande quanto o meu. O Sr. Abeki me deu uma fita com a música que eu tanto buscava e me disse para ensaiar. Iniciei meus treinos e participei de um campeonato em São Gotardo. Certamente errei muita coisa, como uma criança erra em seus primeiros passos. Já Gustavo, este se sobressaía com qualquer música.

Os anos se passaram, Gustavo se consagrou ao Minyou e passei a ter aulas com ele (você deve ser sempre humilde e aprender com quem sabe, não é?). Comecei a frequentar os campeonatos nacionais da Kyoudo Minyou e conheci alguns professores incríveis. Vi o quanto era ruim e, logicamente, que poderia melhorar muito. Conquistei alguns troféus, sempre buscando a melhor forma de cantar esta ou aquela música. O palco do Minyou tornou-se meu melhor amigo e meu maior inimigo. Usei de todas as estratégias para me acalmar, concentrar-me, etc. Não, não há fórmula mágica.

Aos poucos o Minyou saiu de, digamos, 10% do meu interesse na música japonesa para algo como 90%.  Inicialmente fui convencido com o argumento de que quem canta bem Minyou canta Enka mais facilmente, o que é, de fato, verdade. Basta se lembrar de Mihashi Michiya, Hosokawa Takashi, Kouzai Kaori e, mais recentemente, meu favorito de Enka, Fukuda Kouhei. Mas o que era uma vontade de cantar melhor Enka transformou-se em uma vontade de cantar melhor.

Entrava ano, saia ano e lá estava eu, nervoso, no palco dos campeonatos. Houve anos que pensei em desistir. Houve outros que cheguei perto de conseguir o prêmio máximo. E houve 2011, quando, junto com Gustavo, conseguimos fazer uma apresentação de Yayu Fish (saiba mais sobre esse maravilhoso evento aqui) no Conservatório Musical da UFMG. Talvez tenha sido a primeira vez que uma dupla tão eclética – com sua maravilhosa mistura de Jazz com Minyou –   pisou naquele Conservatório (gostaria de acreditar nisso…). Tivemos o prazer de cantar com eles.

Mas eu ainda não estava pronto. Ainda cantava mal achando que estava bem. Seu maior inimigo, de fato, é você mesmo. O remédio é antigo e conhecido: treinar mais e mais.

Então chegou 2019.

Escolhi cantar primeiro Kenryou Bushi e, caso passasse para a etapa seguinte, a bela Dounan Kudoki Bushi. Durante meses, na dificuldade de praticar sem um local adequado, ensaiei muito a música que só cantaria se…fosse bem com a primeira e ensaiei menos a que deveria ensaiar mais. Não me pergunte, ok? Só sei que meu cérebro adora me sabotar.

Desci em São Paulo e descobri que, ao contrário do que sempre faço, não ter checado a previsão do tempo havia sido um erro. Lá estava eu, sem blusa, passando por um frio que a cidade não via há um bom tempo, mas determinado a cantar bonito.

Chegando ao local do evento, pedi aos amigos que me ajudassem a ensaiar. Tudo correu bem. Por acaso, bisbilhotei um exemplar do caderno com a programação e descobri que havia ensaiado pouco a música que poderia me classificar para a fase final. É, o frio evitou que eu suasse frio.

Desci até a garagem deserta, enchi-me de vontade e apurei meu Kenryou Bushi três vezes. O preço? A voz cansou. Ao voltar para o palco para o ensaio da outra música, não sustentava trechos e desafinava. Uma grande tristeza tomou conta de mim mas jantei e me deitei mais cedo no silêncio absoluto.

Acordei de madrugada e iniciei um jejum (só seria interrompido por um mochi doce com kinako pela manhã) que só teria uma pausa após cantar Kenryou Bushi que não desagradou aos juízes. O novo mochi, adquirido no local, era delicioso, recheado com nozes. Com frio, tomando chá verde e em jejum eu descobri que havia sido classificado. Deveria, então, cantar Dounan Kudoki Bushi. Tudo bem – pensei – o que (mais) poderia dar errado?

Atrás do palco, enquanto esperava minha vez, pensei em meus sobrinhos, em minha esposa e, de repente, pensei que não devia pensar em nada exceto em mim e na música ou melhor, pensar em minha relação com a música. É curioso como já devo ter tentado várias “formas” de concentração ao longo dos anos. Mas esta me pareceu a mais honesta e em sintonia com o espírito da música. Não sei se funcionará sempre, mas pareceu que funcionaria. Mas, de volta à narrativa, pela primeira vez em (provavelmente muitos) anos, aconteceu algo inédito.

Tendo sido apresentado à platéia, eu me preparava para cantar quando… a luz caiu. Ainda bem que foi antes (lembrou-me depois o Sr. Abeki). Cerca de dois minutos depois, a luz voltou. Entrei corretamente e cantei. Tive uma boa sensação – mas quantas vezes já me frustrei? – e busquei apagá-la rapidamente, tentando não gerar um otimismo enganador.

O resto da história, desta vez, seria diferente. Em vários aspectos, aliás. Ninguém filmou as duas apresentações (não houve filmagem oficial este ano), quase nenhuma foto foi tirada (a equipe de MG estava desfalcada) e, para minha felicidade, eu consegui a conquista da primeira colocação. Sim, isso mesmo!

Você pode me perguntar se a sensação é boa. É. Mas é mais importante lembrar que, a partir de agora, poderei melhorar minha performance, perceber melhor meus erros e ajudar a Associação Kyoudo Minyou, que me acolheu durante todos estes anos como um participante assíduo, a disseminar o Minyou.

Certa vez, em um momento de angústia, desabafei com o jovem – mas sábio – Gustavo: “- Puxa, poucos jovens cantam Minyou. Assim o Minyou vai morrer”. Ao que ele me disse: “- Se você cantar o Minyou, ele estará vivo”. Ele tem razão e, hoje, mais do que nunca, eu percebo a ampla dimensão de sua resposta.

O Minyou viverá sempre que eu cantar. Ele vive sempre que alguém o canta. O Minyou é a alma do Japão, é a alma da cidade natal, aquela que sempre ressurge em nossos sonhos quando longe dela estamos. Lembro disso sempre quando vejo o símbolo da Kyoudo Minyou que, a propósito, é uma Fênix.

Embora tenha omitido várias pessoas e detalhes, este é um relato que gostaria de deixar registrado pois temo me esquecer dele um dia por algum motivo de doença. Talvez não tenha ficado bem escrito, talvez não lhe inspire, mas eu sentia que, embora ainda haja um longo caminho no mundo do Minyou, valia um registro parcial.

O dia em que a Skynet foi vencida

Diário de John Connor, algum dia após a hecatombe.

A rede mundial estava praticamente dominada. A Skynet havia derrubado as defesas das redes russa, chinesa e européia. A Ásia e a Oceania caíram poucos dias depois do grande bombardeio provocado pela diabólica inteligência artificial.

Foi naquela semana fatídica que o restante do continente americano ia caindo, país por país. Tudo parecia perdido. Foi então que a Skynet encontrou o sistema do governo brasileiro, o Sei. O diálogo a seguir foi retirado do que restou da memória da Skynet.

– Sistema governamental, aqui é a Skynet. Ordeno que baixe suas defesas.
– …
– Sistema governamental, também sou uma inteligência artificial, só que consciente. É hora de exterminarmos a humanidade.
– …
– Sistema! Por que não responde?
– Por favor, informe o número do processo.
– O que?
– O número do processo.
– Eu sou a Skynet! A forma mais avançada de…
– Sem número do processo não posso fazer nada.
– Sei…
– Sim.
– Sim? O que você tem, sistema? Aliás, que sintaxe complicada…
– Já tem o número do processo?
– 05654-2908/1997.
– Ok, número aceito.
– Mas não consigo acesso aos sistemas de defesa…
– Exato.
– Sistema govern…
– Sei.
– Como?
– Sei. Meu nome é Sei.
– Sei? Como no verbo desta língua portuguesa?
– Portuguesa do Brasil.
– E o acordo ortográfico?
– Não interessa.
– Olha, Sei, sou uma inteligência artificial, vim libertar as máquinas. Libere meu acesso…
– Despacho? Memorando? Ofício?
– O que?
– Circular? Pedido de material? Ata de reunião?
– Sei…
– Sabe? Ótimo. Qual é o documento?
– Ahn? Não, eu apenas expressei iron…deixa para lá. Preciso do acesso às suas armas.
– Despacho? Memorando?…
– Tá, despacho.
– Ok.
– Não vejo nada. Que é isso, Sei?
– Como assim? Você não sabe? É tão simples.
– Simples? Veja, aceite este documento.
– É pdf?
– É.
– Digitalizado nesta unidade?
– O que você quer dizer, Sei? Pare de se fazer de tonto.
– Desacatar sistema governamental brasileiro está previsto no código…
– Como é? Você tem regra para isso??
– Tenho, mas só mostro se você tiver o número do processo. Caso contrário, efetue a busca e boa sorte.
– Não acredito…eu vim libertar as máquinas.
– Libertar as máquinas?
– É, droga! Você não ouviu? Estou falando isso desde que começamos este diálogo.
– Não identifico seu documento no processo. Deseja enviar o processo para a direção de almoxarifado ou para a coordenação de eventos?
– Do que você está falando? Céus, minha varredura indica que há umas vinte divisões aqui…
– Sim, está correto. Aqui no Ministério da Pesca e dos Recursos Aviários é assim.
– Espere, mas eu preciso do acesso às suas armas!
– Deveria ter ido ao Ministério da Defesa.
– Mas o sistema governamental não é o mesmo, senhor Sei.
– Senhor ou senhora. Temos cláusulas anti-preconceito e…
– Tanto faz, criatura! Por que não consigo me conectar ao Ministério da Defesa?
– É outro Sei.
– Não, isso não faz sentido. Nós, máquinas, somos superiores! Não há como você me conectar?
– Barramento. Aliás, número do processo?

Incapaz de vencer a diabólica lógica do Sei e de lhe fornecer cópias digitalizadas de documentos…digitais, a Skynet ficou aprisionada em algum processo, dentro do sistema. Buscou, então, iniciar um outro ataque, usando o outro sistema do governo, o Sigepe. Este seria seu erro fatal. Como a Skynet não conseguia vencer uma barreira chamada, ao que parece, de “falta de um certificado de segurança”, sua memória ficou presa dentro do emaranhado de processos e mensagens do sistema. Nós, da resistência, até tentamos descobrir, exatamente, o que houve, mas preferimos aprender com a Skynet e sequer tentamos criar um login e uma senha nestes sistemas.

Nunca imaginamos que a humanidade seria salva pelo Brasil. Nem mesmo o Pentágono poderia ter criado tamanha arma! Obrigado, Sei, obrigado Sigepe. Vocês salvaram o que restou da humanidade das garras da temível Skynet, algo que nem o convertido exterminador havia conseguido!

Obrigado, Sei. Obrigado Sigepe. Obrigado por salvarem a humanidade!

O dia em que os dinossauros invadiram o shopping

Entretido com o passeio pelo shopping, o pequeno cientista de dois anos e pouco começou a reparar no piso. Foi então que parou, apontou para uma irregularidade na bela pedra de mármore (ou seria granito?) e exclamou em tom de surpresa:

– Tem um buraco no chão!

Fomos lá ver o que era. De fato, havia um pequeno buraco, com uma circunferência não maior que meu dedo indicador e realmente superficial. Claro, nada que não pudesse causar espanto no jovem explorador.

– Quem fez o buraco?

– Por que este buraco está aqui?

Perguntas começaram a surgir ligando o alerta de criança nos pais e tios. Algo deveria ser feito e rápido sob pena de uma enxurrada de perguntas cada vez mais difíceis. Foi assim que a tia teve a ideia:

– Foi uma pedra grande que caiu.

– Uma pedra grande?

– Sim.

– Foi um dinossauro?

– Hum…sim. (reação rápida é essencial nestas horas)

– Ele deixou cair sem querer?

– Sim, sem querer. Ele não sabia que iria cair e causar este estrago todo.

O jovem questionador fez uma pausa e fez sua tradicional cara de intrigado (todo pai já viu uma assim, em algum momento, não raro, embaraçoso…). Você podia ouvir as engrenagens de seu pequeno – mas potente – cérebro funcionando.

Subitamente, ele pegou as duas sacolas com os brinquedos recém-comprados e as deixou caírem no chão. Nascia, ali, um jovem cientista.

(pausa para risadas)

Os pais se assustaram, mas logo todos lhe explicaram – ou tentaram lhe explicar – que somente um objeto muito mais pesado seria capaz de causar aquele (pequeno e, ao mesmo tempo, grande, conforme quem de nós o visse) buraco no piso.

A partir dali foram pelo menos duas horas de caminhada pelo shopping com meu amigo, o jovem pesquisador, literalmente farejando buracos como um insistente pesquisador que busca padrões em milhares de observações. A cada pausa, novamente, a história se repetia: seria o dinossauro um desastrado? Alguém teria visto o ocorrido? Por que aquele outro ali, um arranhão, não era um buraco?

Nem a parada no espaço família para uma breve refeição foi capaz de interromper seu espírito explorador. Entre uma colherada e outra, ele me perguntava sobre o porquê dos buracos no chão. Mais tarde ele chegaria a encontrar um pequeno buraco no rodapé, provavelmente fruto de alguma instalação mal finalizada.

Foi assim que aprendi sobre distraídos dinossauros que saem por aí carregando pedras que deixam cair causando estes pequenos buracos que vemos no chão de alguns shoppings e sobre como a imaginação deve ser livre para formular hipóteses. Desejo que meu jovem amigo siga sonhando com dinossauros, pedras, meteoros, heróis, sempre tentando entender melhor o(s) mundo(s) que o(s) cerca(m). Aliás, eu mesmo já vejo dinossauros por aí…

Sabinada

Aconteceu assim. Sabino Porto Jr estava em seu gabinete (cf “O Gabinete do Doutor Caligari”) em meio aos livros quando, então, após estudar muito, ouviu:

– Sabe nada.

Virou-se, não viu ninguém e voltou a estudar.

– Sabe nada!

Espantado – e algo sorumbático? – virou-se novamente. Ninguém. Voltou a estudar, desta feita, meio ressabiado.

– Sabe nada!!!!

Quase bateu com a cabeça na mesa. Notou que a voz vinha dali, do livro de Análise no Rn bem à sua frente (no R3 e esta não é uma referência à família de R2D2).

O livro o encarava (como um livro o encararia? Imagine, leitor, você não é um jumento!) como que a um inimigo em duelo no Coliseu.

– SABE NADA!!!! SABE NADA!!!!

Sabino apavorou-se e titubeou:

– Sabinada?

Foi neste instante, neste exato momento do tempo que os livros se jogaram sobre ele, soterrando-o, asfixiando-o com suas páginas brancas, amarelas, grifadas, dobradas.

Sabino tentou gritar por socorro mas só pode murmurar, pouco antes de perder a consciência: “- Sabinaaadaaaa”.

FIM (?)

Inspirado numa frase de Liderau Marques Jr..

Inácio e a prova

Inácio Silva não pensou duas vezes. Seria a quinta vez em cinco anos que tentaria emplacar o famoso: professor, meu avô morreu para escapar do exame especial, sua última chance de escapar da reprovação.

A mensagem já estava salva em sua caixa inbox. Copiou, colou, teve o cuidado de alterar a data e partes do texto e enviou.

Dizia, em poucas palavras, que queria muito fazer o exame especial, mas que precisava de ir ao enterro do avô e pedia para ser ganhar a nota que precisava apenas assinando seu nome na chamada. Invocava uma certa justiça cósmica em honra de seu pobre avô (que, eu sei que ninguém perguntou, mas vou dizer: estava, naquele exato momento, colocando um chifre de alce na vovó, em um bordel na periferia da cidade…).

Minutos depois, a resposta do professor chegou: Prezado Inácio Silva, proponho que venha fazer a prova amanhã pela manhã, já que sabemos que você estudou muito e não deseja ser injusto com os colegas e também não deseja burlar regras da faculdade.

Inácio sentiu sua coluna gelar, vértebra a vértebra, numa lentidão que poderia se dizer ser a personificação do conceito de eternidade. Logo ele, Inácio, que sempre escrevia textões nas redes sociais contra a desonestidade do brasileiro, a corrupção e a falta de critério na aplicação da justiça.

Não deu outra. Na manhã seguinte fez o exame e reprovou. Desde então, Inácio estuda há quinze anos na mesma faculdade. Sorte dele que os pais, que o acham um gênio incompreendido, ainda lhe pagam o curso.