Sentido da Vida – rápidas

Eu sempre achei que meu objetivo de vida era existir para comer ‘cookies’ (os descentes, feitos nos EUA ou no Reino Unido, claro). Acho que é o mais próximo que tenho de um conceito de  ‘sentido da vida’.

Por outro lado, tenho aquele sonho de infância de, um dia, acordar abraçado a uma jabuticaba gigante. Nada mal para um candidato a sentido da vida, certo?

Agora, terrível mesmo é começar a ter sonhos de consumo ligados às ofertas que recebo de papelarias (como a Kalunga no Brasil ou a Staples nos EUA). Dá uma vontade irresistível de comprar tudo que é grampeador e agenda.

Qual o sentido da vida para você?

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Run, Santa Claus, Run

Foram anos vestindo-me de Papai Noel apenas para uma criança, minha sobrinha. Os pais, por sua vez, resolveram que a educariam sem crença em qualquer fantasia infantil: Papai Noel, Coelho da Páscoa, etc.

Assim, a cada ano, naturalmente, eu era interpelado por uma criança que se intrigava por minha exótica – para ela – mania em me vestir de Papai Noel (ou Santa Claus). Sendo a mesma a única criança nas festividades natalinas de uma família já não tão mais católica como antes, o Papai Noel poderia, imaginava, ter um papel interessante na minha vida e na dela também. No mínimo, uma boa fonte de risadas.

Houve uma vez em que cheguei em sua casa e já levei na cara, antes de qualquer cumprimento ou abraço:

– Você não é o Papai Noel, é o tio Cláudio!

Tentei negar, mas a prova irrefutável estava na foto do Papai Noel do Shopping, aquele prostituto (brincadeira, acho o velhinho legal) que recebe por hora para sentar crianças que nunca viu na vida em seu colo durante dias.

Por que uma criança que já aprendeu desde sempre que não existe Papai Noel insiste em dizer que o verdadeiro Santa Claus seria outro que não seu tio ainda é algo que não compreendo completamente.

Os anos se passaram e, mesmo que eu não seja lá o mais católico dos mortais, descobri que havia outro aspecto divertido do Natal: ir já de barba e gorro vermelho, dirigindo, com a janela do carro aberta. Foi quando descobri que meu Papai Noel alegrava adultos, adolescentes e crianças. Ou melhor, alegrava crianças de todas as idades.

Houve aquela vez em que um surrado Fiat passou carregado de tias que acenavam para mim. Houve aquela outra em que vi uma menina do banco traseiro de um táxi, filmando-me com o celular. Houve também o menino que, do carro da frente, olhava-me intrigado. Claro, houve a das crianças que me perguntaram, do carro ao lado (em um daqueles momentos de semáforos vermelhos) se eu passaria na casa delas.

Mas houve também o menino de rua que me pediu algo e eu, desesperado, com aquela roupa vermelha, não conseguia sequer tirar um dinheiro do bolso, dando-lhe tão somente um aperto de mão algo triste. Foi assim que surgiu a idéia de fazer o que fiz este ano.

Mesmo tendo mudado radicalmente minha vida, mantive a promessa: iria fazer o que sempre fiz, alegrar minha sobrinha, mas também distribuiria alguns presentes simples para meninos que encontrasse na rua, tentando ganhar uns trocados.

Sei que há milhares de problemas. Sei que alguns destes meninos não deveriam estar nas ruas e que alguns até se envolvem em coisas piores. Mas momentos ruins todos temos. Conheço gente que mente, gente que manipula gente e até gente que rouba e, claro, nenhum deles está mendigando no sinal. Então, vamos nos entender aqui: o espírito de Natal consiste justamente em sentir o significado de misericórdia, perdão e amor, ok?

Tendo dito isto, eis minha odisséia, passo-a-passo. Vamos chamá-la de Roteiro de Santa Claus

1. Conversando com a funcionária da imobiliária (que me prometeu mandar o boleto por email até o dia 23, mas não o fez…ok, deu tudo certo, graças a Deus), descobri que existia um atacadão que vendia uns brinquedos mais simples a um bom preço. Foi o melhor presente de Natal que ela poderia me dar.

2. Saí direto de lá para a tal loja e me enchi de duas sacolas de brinquedos. Carreguei-a para a Universidade e depois, mais tarde, para casa, onde as coloquei em minhas malas. Peguei o ônibus, depois os aviões e cheguei em Belo Horizonte.

3. Cumpri minhas obrigações sociais e me preparei para o Natal em família. Cheguei na casa da minha sobrinha chutando o pau da barraca com o anúncio de que os que não acreditassem em Papai Noel não seriam agraciados com presentes e a menina prontamente se converteu em uma amiga deste Papai Noel, não sem tentar, a todo custo, derrubar meu argumento. Alguns exemplos:

– Mas se você é o Papai Noel, você não faz como o tio Claudio, que faz cócegas em crianças, né?

Ou:

– Por que o Papai Noel deixou as roupas com você, tio Claudio?

– Porque ele é preguiçoso e pediu para eu lavar para ele.

– Ah, tá…

Ou:

– Como é que o Papai Noel saiu pela janela do banheiro se ela tá bem fechadinha?

– É porque a tia Mayumi a fechou depois que ele saiu.

– Ah, tá…

Pois é. Ela não desiste. Mas voltemos ao roteiro.

4. Após esta comemoração do Natal em família, que este ano foi adiantado, preparei-me para minha missão mais difícil. A dúvida era se eu sairia ao longo dos dias, ou apenas no dia 24. Decidi pela segunda – e mais arriscada – opção. Também decidir que só entregaria presentes para as crianças e que não me importaria com o que elas fariam com os mesmos. Afinal, ninguém nunca me perguntou se vendi meu brinquedo e, pessoalmente, acredito que o indivíduo sabe o que é melhor para si próprio, seja ele pobre, rico, eleitor de bandidos, mentiroso compulsivo, chefe, torcedor do Vasco, etc.

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O bom, o mau e o feio…em apenas duas fotos!

5. No dia 24, joguei as sacolas no banco ao meu lado e saí dirigindo em busca de meninos de rua. Não foi fácil. Verifiquei que a maior parte dos que pedem dinheiro em sinal são adolescentes ou adultos. Poucas crianças eram vistas (eu bem poderia ter observado melhor nos dias anteriores para ver se isto só ocorre na véspera ou se, de fato, estaria diante de uma melhoria no quadro social, mas isto fica para o ano que vem…). Andei um bocado pela cidade, sob um trânsito nem sempre generoso (o final da manhã e o início da tarde do dia 24 não são períodos, digamos assim, tranquilos…) e, após entregar tudo, ainda reencontrei o mesmo menino que ganhou o primeiro presente que me indagou se eu tinha dado muitas voltas por aí.

Creio que cerca de uma dúzia (ou um pouco mais do que isto) de crianças recebeu alguns brinquedos. Não foram muitos, mas não me propus a corrigir os problemas do mundo, apenas o que podia fazer com o que pude gastar em tempo e dinheiro nesta tarefa.

Pois bem, durante esta epopéia, tive os pequenos prazeres de sempre: (a) mães animadas que me apontavam efusivamente para suas filhas não menos animadas (o legal é que, frequentemente, pais curtem mais do que os filhos esta brincadeira); (b) crianças acenando para mim e pais que as orientavam sobre se passaria ou não em suas casas à noite e; (c) este ano, ainda tive os simpáticos senhores e senhoras da terceira idade (ali no limite entre a segunda e a terceira) que, de dentro de um belo carro, ainda me chamaram para dizer que eu estava bem vestido (isso sim, é ser generoso) e, finalmente, (d) houve o frentista do posto que me lembrou que meu trenó estava bem diferente, sem renas, e o abasteceu dando-me, sem perceber, outro presente de Natal.

Eu sei, todos devem estar se perguntando: gostou? A resposta é simples: “é, gostei”. A sensação não dura para sempre e nem mudou completamente minha vida. Não sou outro e nem mereço canonização. Posso dizer que, sim, foi divertido e também cansativo.

Ah sim, há um ponto importante: pelo menos não fui um Papai Noel de uma criança só (ou de duas, se contarmos a mim mesmo) e este, meus poucos leitores, é o que entendo por espírito natalino.

Feliz Natal!

p.s. Não se engane: não acho que todos deveriam fazer o mesmo e nem que eu tenha que fazer isso todo ano (embora eu desconfie que isso não vá parar por aqui…). Acredito que não se impõe a terceiros tarefas como esta. Não me sinto moralmente melhor do que o leitor ou a leitora, vejam bem. Não se trata disto, ok? Cada qual com suas crenças, cada qual com seus valores. Mas se você sorriu com este relato, então você também pode não ter percebido, mas acaba de me dar um presente de Natal (ok, aceito DOC e TED na minha conta também).

Um Conto Brasileiro

Aí o filho chegou da rua, cansado. Brincou, brincou, saiu com os amigos, foi para a cervejada em plena segunda-feira. A mãe, com razão, ralhou – e muito – com ele.

Mas o filho tinha uma proposta. Pediu para a mãe que esperasse até a hora do jantar quando, solenemente, mostraria como iria fazer para se recuperar na escola e pagar a conta do boteco do seu Zé.

A noite veio e, com ela, o pai, cansado, que trabalhara o dia todo porque, sabe como é, com esta crise, emprego não está fácil e dedicação e empenho são bons e o patrão gosta. Sem falar que ele trabalhava com venda de remédios, tinha metas…

O grito da mãe ecoou e o filho veio juntar-se aos pais à mesa. O jantar não era farto. Apesar da propaganda governamental, a porção de arroz era menor e a carne, coitados, voltou a ser a de segunda. Mas a vida era digna.

A mãe olhou para o filho de forma inquisitorial. O moleque, assim, pediu licença. O pai, assustado, fixou os olhos nele. A mãe pediu a palavra e explicou ao pai o ocorrido: notas baixas, risco de recuperação na escola privada (que era uma novidade em suas vidas, mas a mensalidade estava enlouquecendo os pais…), dívida de cerveja no boteco na segunda-feira. Podia-se notar o desespero no rosto suado do pai.

O filho, então, toma a palavra:

– Pai, mãe, como um adolescente de 14 anos, acho que é meu dever apresentar a vocês minha solução para isso tudo. Não quero que se preocupem. Vou estudar tentar tirar uma nota apenas 10 pontos abaixo da média em todas as matérias. Além disso, vou pegar metade da minha mesada e pagar 1/3 da dívida com o seu Zé. Prometo me esforçar para não beber muito nos outros dias.

Os pais se entreolharam, decepcionados, desesperados. O filho complementou:

– Pai, mãe, se o governo pode apresentar um orçamento com déficit, eu também posso, não posso?

Devido à nova legislação brasileira, este autor não prosseguirá com os fatos – ainda que fictícios – que ocorreram nesta família. Afinal, não se pode dar palmada em criança ou adolescente, né?

Fim

Distorções do espaço-tempo num domingo à tarde: o mistério da Sala 4

Pensava que iríamos ver um filme do Bruce Lee, mas minha esposa insistiu em ver a única seção diária de uma comédia francesa. Segundo ela, o filme não era comercial, embora eu sempre tenha achado que atores e atrizes gostam de receber um salário pelo seu suor. Não valia a pena brigar por hipóteses sobre a estrutura de mercado para filmes com poucos minutos para o início da sessão e lá fomos nós, correndo, para o cinema.

Fila quase inexistente, pipoca e refrigerante comprados, passamos pela catraca.

– A sala 4 não está liberada ainda, mas os senhores podem esperar aqui, nesta sala de espera.

Era uma sala cheia de gente mas havia algo estranho, misterioso. Só idosos estavam por lá (o que obviamente significa que não tínhamos onde nos sentar). Ocorreu-me o sarcástico pensamento de que minha esposa seria uma velha (que adora filmes franceses) e eu um jovem saradão e esperto (jovens não são conhecidos por amarem filmes franceses, exceto em tribos específicas), mas minha barriga logo me lembrou do contrário. Diminuí o ritmo do meu avanço no saco de pipocas.

Alguns minutos se passaram e notei que alguns idosos lentamente caminhavam da catraca para a sala, possivelmente a nossa sala, a famigerada sala 4. Imaginei como seria minha vida, naquele momento, caso eu resolvesse ser educado e cedesse o lugar para cada idoso. Sim, seria uma longa, longa marcha (e lenta) até a sala 4.

Obviamente, a questão mais intrigante, naquele momento, para mim, referia-se ao fato de todos aqueles vovôs e vovós estarem ali, em pleno final de tarde de um domingo. Afinal, eles não pagam meia entrada? Não estão aposentados e podem ir ao cinema na terça-feira, às 13:00 h, sem qualquer constrangimento (e ainda dando uma ‘banana’ para os estudantes do ensino médio, quase que literalmente)? Por que estariam ali, justamente no domingo? Simplesmente não fazia sentido.

Pois é. Eu pensava e pensava e nada me ajudava a entender aquele cluster de vovôs e vovós na sala de espera, uma aparente anomalia que mais parecia um episódio de Além da Imaginação (The Twilight Zone) ou de Jornada nas Estrelas (Star Trek). Como sempre, ocorreu-me que eu poderia estar em uma distorção do espaço-tempo. Esta é sempre minha primeira hipótese para qualquer problema que tenho: a fila do banco não anda? Distorção do espaço-tempo. Não tem troco para vinte reais? Distorção do espaço-tempo, a pizza está atrasada? Claro, distorção do espaço-tempo.

Após a – surpreendentemente-pelo-menos-para-mim-que-odeio-filmes-franceses – divertida comédia francesa, cumprimos nosso ritual biológico de balanceamento renal (Coca-Cola Zero pode ter este efeito, sabia?) e, finalmente, desvendamos o mistério da Sala 4: os idosos todos haviam combinado de irem ao cinema assistir exatamente o mesmo a mesma comédia, no mesmo dia (e horário, mas só havia um horário, logo, deixemos apenas o “mesmo dia” para poupar o leitor de mais palavras, ops…) que a gente.

Sim, leitor, idosos têm mais tempo e, portanto, podem investir mais deste valioso ativo na coordenação para combinarem um passeio de domingo. Não se tratava de distorção do espaço-tempo…ou não?

p.s. Já viu o preço deste livro? É ele o inspirador deste blog.

Górki, professor

Se Iákov fosse professor,
Ia lecionar da manhã até a noite:
Ai, que tristeza!
Ai, que tristeza!
Trabalhos copiados para corrigir;
Semana de provas com certeza.
Ai, que tristeza!
Ai, que tristeza!
Do fundo da sala um celular toca,
Só assim eles se agitam.
Ai, que tristeza!
Ai, que tristeza!
Um computador não se faz iniciar,
E outro aluno não leu o livro!
Ai, que tristeza!
Oh, como padeço!

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O gol mais bonito que já marquei

Untitled 188

Foi num recreio, lá nos anos 80. Eu havia saído no meio do jogo e voltara no segundo tempo. Peguei a bola, visualizei o gol e comecei a correr pelo campo. Driblei uns três – algo que não acontecia há tempos – e segui em frente.

Muito rapidamente ocorreu-me que ali poderia ser o início de minha revolução no futebol: após anos de desempenho sofrível, minha hora havia chegado.

Foi quando chutei e a bola passo por um goleiro atônito. Gol. Saí comemorando enquanto todos me olhavam. Aos poucos percebi que não era admiração. Era mais espanto. Sim, estavam todos chocados. Todos, menos eu…até aquele momento.

Ah sim, os times trocam de lado quando passamos do primeiro para o segundo tempo. E eu havia confundido os dois baixinhos que jogavam nos times. Sim, quando voltei, ansioso por jogar, eu mirei num dos baixinhos (do meu time) achando que era o outro (do outro time). Como estávamos todos de uniforme do colégio, era minha referência.

Pois é. Não digo que a culpa foi do baixinho. Não foi não. Mas, olha, vou te contar, foi um belo gol que me rendeu uma alegria e tanto, mas por poucos minutos.

Só aqui, neste blog, o legítimo “Tire A Mão Da Minha Linguiça”

tireamaodaminha_kindleEm Minas, quando você se afasta da capital e, obviamente, aproxima-se do interior é assim: primeiro vem uma cidade que, dizem, é a “cidade da empada”. Aí você anda de carro e começam as placas dos restaurantes (restaurantes? Muitas vezes são barraquinhas disfarçadas de botecos ou botecos disfarçados de restaurantes o que, veja bem, não desmerece em nada o local):

“A legítima empada”.

A seguir, temos algo como:

“Aqui, a verdadeira empada”.

Em seguida:

“Aqui, a verdadeira legítima empada”.

Como não poderia deixar de ser, as placas se sucedem:

“Só aqui: a única empada verdadeira”.

“A empada legítima, verdadeira e deliciosa”.

“Pode esquecer o resto: aqui é que ocê (ocê mesmo) vai encontrá (idem) a verdadeira, legítima e deliciosa empada (patente requerida, uai)”.

Ok, posso ter exagerado um pouco em algumas das placas, mas não é divertido ver como a concorrência incentiva a economia de uma cidade (e todos ganham com isto)?

Não me tome como bairrista, leitor. Não é só em Minas que isto ocorre. Lembro-me de algo assim em Gramado, RS:

“Aqui, a verdadeira sopa no pão”.

Ao lado:

“Não, aqui é que tem a verdadeira sopa no pão, tchê”.

A idéia deve ser universal mesmo. Lamentavelmente, não temos placas como:

“Aqui, o verdadeiro e legítimo prefeito honesto”, “Somente aqui, vereadores que não aprovam pedaladas fiscais”, etc.

Bem, já que eu anunciei, né, aqui está o livro, para Kindle (e você não precisa ter um Kindle, mas basta ter aplicativos de leitura compatíveis) na Amazon.com.br.