Distorções do espaço-tempo num domingo à tarde: o mistério da Sala 4

Pensava que iríamos ver um filme do Bruce Lee, mas minha esposa insistiu em ver a única seção diária de uma comédia francesa. Segundo ela, o filme não era comercial, embora eu sempre tenha achado que atores e atrizes gostam de receber um salário pelo seu suor. Não valia a pena brigar por hipóteses sobre a estrutura de mercado para filmes com poucos minutos para o início da sessão e lá fomos nós, correndo, para o cinema.

Fila quase inexistente, pipoca e refrigerante comprados, passamos pela catraca.

– A sala 4 não está liberada ainda, mas os senhores podem esperar aqui, nesta sala de espera.

Era uma sala cheia de gente mas havia algo estranho, misterioso. Só idosos estavam por lá (o que obviamente significa que não tínhamos onde nos sentar). Ocorreu-me o sarcástico pensamento de que minha esposa seria uma velha (que adora filmes franceses) e eu um jovem saradão e esperto (jovens não são conhecidos por amarem filmes franceses, exceto em tribos específicas), mas minha barriga logo me lembrou do contrário. Diminuí o ritmo do meu avanço no saco de pipocas.

Alguns minutos se passaram e notei que alguns idosos lentamente caminhavam da catraca para a sala, possivelmente a nossa sala, a famigerada sala 4. Imaginei como seria minha vida, naquele momento, caso eu resolvesse ser educado e cedesse o lugar para cada idoso. Sim, seria uma longa, longa marcha (e lenta) até a sala 4.

Obviamente, a questão mais intrigante, naquele momento, para mim, referia-se ao fato de todos aqueles vovôs e vovós estarem ali, em pleno final de tarde de um domingo. Afinal, eles não pagam meia entrada? Não estão aposentados e podem ir ao cinema na terça-feira, às 13:00 h, sem qualquer constrangimento (e ainda dando uma ‘banana’ para os estudantes do ensino médio, quase que literalmente)? Por que estariam ali, justamente no domingo? Simplesmente não fazia sentido.

Pois é. Eu pensava e pensava e nada me ajudava a entender aquele cluster de vovôs e vovós na sala de espera, uma aparente anomalia que mais parecia um episódio de Além da Imaginação (The Twilight Zone) ou de Jornada nas Estrelas (Star Trek). Como sempre, ocorreu-me que eu poderia estar em uma distorção do espaço-tempo. Esta é sempre minha primeira hipótese para qualquer problema que tenho: a fila do banco não anda? Distorção do espaço-tempo. Não tem troco para vinte reais? Distorção do espaço-tempo, a pizza está atrasada? Claro, distorção do espaço-tempo.

Após a – surpreendentemente-pelo-menos-para-mim-que-odeio-filmes-franceses – divertida comédia francesa, cumprimos nosso ritual biológico de balanceamento renal (Coca-Cola Zero pode ter este efeito, sabia?) e, finalmente, desvendamos o mistério da Sala 4: os idosos todos haviam combinado de irem ao cinema assistir exatamente o mesmo a mesma comédia, no mesmo dia (e horário, mas só havia um horário, logo, deixemos apenas o “mesmo dia” para poupar o leitor de mais palavras, ops…) que a gente.

Sim, leitor, idosos têm mais tempo e, portanto, podem investir mais deste valioso ativo na coordenação para combinarem um passeio de domingo. Não se tratava de distorção do espaço-tempo…ou não?

p.s. Já viu o preço deste livro? É ele o inspirador deste blog.

Anúncios

Górki, professor

Se Iákov fosse professor,
Ia lecionar da manhã até a noite:
Ai, que tristeza!
Ai, que tristeza!
Trabalhos copiados para corrigir;
Semana de provas com certeza.
Ai, que tristeza!
Ai, que tristeza!
Do fundo da sala um celular toca,
Só assim eles se agitam.
Ai, que tristeza!
Ai, que tristeza!
Um computador não se faz iniciar,
E outro aluno não leu o livro!
Ai, que tristeza!
Oh, como padeço!

[Reconheceu? Não? Veja os “tags”]

O gol mais bonito que já marquei

Untitled 188

Foi num recreio, lá nos anos 80. Eu havia saído no meio do jogo e voltara no segundo tempo. Peguei a bola, visualizei o gol e comecei a correr pelo campo. Driblei uns três – algo que não acontecia há tempos – e segui em frente.

Muito rapidamente ocorreu-me que ali poderia ser o início de minha revolução no futebol: após anos de desempenho sofrível, minha hora havia chegado.

Foi quando chutei e a bola passo por um goleiro atônito. Gol. Saí comemorando enquanto todos me olhavam. Aos poucos percebi que não era admiração. Era mais espanto. Sim, estavam todos chocados. Todos, menos eu…até aquele momento.

Ah sim, os times trocam de lado quando passamos do primeiro para o segundo tempo. E eu havia confundido os dois baixinhos que jogavam nos times. Sim, quando voltei, ansioso por jogar, eu mirei num dos baixinhos (do meu time) achando que era o outro (do outro time). Como estávamos todos de uniforme do colégio, era minha referência.

Pois é. Não digo que a culpa foi do baixinho. Não foi não. Mas, olha, vou te contar, foi um belo gol que me rendeu uma alegria e tanto, mas por poucos minutos.

Só aqui, neste blog, o legítimo “Tire A Mão Da Minha Linguiça”

tireamaodaminha_kindleEm Minas, quando você se afasta da capital e, obviamente, aproxima-se do interior é assim: primeiro vem uma cidade que, dizem, é a “cidade da empada”. Aí você anda de carro e começam as placas dos restaurantes (restaurantes? Muitas vezes são barraquinhas disfarçadas de botecos ou botecos disfarçados de restaurantes o que, veja bem, não desmerece em nada o local):

“A legítima empada”.

A seguir, temos algo como:

“Aqui, a verdadeira empada”.

Em seguida:

“Aqui, a verdadeira legítima empada”.

Como não poderia deixar de ser, as placas se sucedem:

“Só aqui: a única empada verdadeira”.

“A empada legítima, verdadeira e deliciosa”.

“Pode esquecer o resto: aqui é que ocê (ocê mesmo) vai encontrá (idem) a verdadeira, legítima e deliciosa empada (patente requerida, uai)”.

Ok, posso ter exagerado um pouco em algumas das placas, mas não é divertido ver como a concorrência incentiva a economia de uma cidade (e todos ganham com isto)?

Não me tome como bairrista, leitor. Não é só em Minas que isto ocorre. Lembro-me de algo assim em Gramado, RS:

“Aqui, a verdadeira sopa no pão”.

Ao lado:

“Não, aqui é que tem a verdadeira sopa no pão, tchê”.

A idéia deve ser universal mesmo. Lamentavelmente, não temos placas como:

“Aqui, o verdadeiro e legítimo prefeito honesto”, “Somente aqui, vereadores que não aprovam pedaladas fiscais”, etc.

Bem, já que eu anunciei, né, aqui está o livro, para Kindle (e você não precisa ter um Kindle, mas basta ter aplicativos de leitura compatíveis) na Amazon.com.br.

Poeminhas popularescos e oportunos

Jogo de Luiz

Gente! cadê Luiz Inácio?
“Foi pra Brasília.
– Gente, fazer em Brasília?
“Plantar inflação.
– Gente, pra que inflação?
“Pra colher votos e juros.
– Gente, pra que votos e juros?
“Pra ganhar eleição,
– Gente, como há ladrão.

Baseado em “Jogo de Varisto”, versão sergipana, in Romero, Silvio (1985) Cantos Populares do Brasil, Itatiaia, p.293, reproduzido a seguir:

Jogo de Varisto

Gente! cadê Varisto?
“Foi pra roça.
– Gente, fazer na roça?
“Plantar mandioca.
– Gente, pra que mandioca?
“Pra dinheiro.
– Gente, pra que dinheiro?
“Pra feitiço,
– Gente, no mundo há disto.

Em homenagem a todos meus amigos nordestinos.

Dia dos Namorados…ficou sem graça

Quando você abre sua caixa de mensagens e vê que uma das mensagens de propaganda que regularmente recebe mudou o “Dia dos Namorados” para “Dia da Sensualidade”, você já começa a se preocupar. Aí vem o início da mensagem.

spamsqueadoro2

Sem falar na continuação.

spamsqueadoro3

Pois é, gente. Nada contra usar uma banca de privada em miniatura no órgão fálico (paternalista, machista, opressor e que as “vadias” adoram) ou comprar produtos para variar um pouco na relação. Nada disso me perturba. Sou um sujeito tranquilo com a diversidade de preferências. O que me deixa triste é que o dia dos namorados não é mais um dia para os namorados comemorarem: virou o dia da sacanagem.

Novamente, nada contra a sacanagem mas poderiam ter criado um dia só para isto (na verdade, criaram: todo dia de eleição é um dia de sacanagem). Ou o dia do sexo. Sei lá. Afinal, a pergunta poderia ser: no dia dos pais, você vai também presentear seu querido papai com um anel peniano? E o que dizer do dia das mães? Um vibrador para ela? Ah sim, no Natal…

Percebe? Sei lá. Acho que o marqueteiro errou na mão. Ou eu sou chato. Ou ambos.